Cenas japonesas - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de junho de 1998
Walmor Maccarini 
Noventa anos de japoneses no Brasil. É o que se celebra neste sábado, com grande festa. Presidente FHC presente. Público esperado de 30 mil pessoas. O local é Rolândia, num sítio de 40 hectares onde já esteve há 20 anos o casal imperial Akihito e Michiko, por isso solo sagrado, pela tradição japonesa. Uma personalidade muito especial estará no palco: Dona Tomi Nakagawa, de 92 anos, a única pessoa viva dos 781 primeiros imigrantes japoneses a chegar ao Brasil, o que aconteceu em 18 de junho de 1908. Portanto, hoje é a data do 90º aniversário dessa chegada.
Dos japoneses no Brasil, umas poucas coisas a dizer, mas que dizem tudo: eles chegaram para trazer contribuição, e ajudaram este país a ficar mais rico - social, cultural e espiritualmente. Hoje, o quase milhão e meio de japoneses que vivem no Brasil são uma comunidade operante, ordeira, amiga e bem humorada.
Mas esta celebração dos 90 anos da imigração me traz à lembrança algumas emoções vividas no Japão, uma delas o privilégio de ver as cerejeiras em flor num ano e num dia em que elas chegaram ao ponto máximo da floração, o que mesmo para os japoneses fora uma ocasião especial.
Era manhã de sol de sábado, em plena primavera japonesa, o Japão inteiro desfrutando desse momento mágico, multidões esparramando-se pelos parques, debaixo dessas árvores de tanto significado para eles, num colossal pique-nique que se estendia de ponta a ponta do país. Muitos entoavam a sua mais bela e terna canção, que tem mais de cem anos e é tida como de autor desconhecido: Sakura, que quer dizer cerejeira.
A cerejeira dá flor durante apenas duas semanas, ou menos, e há anos em que ela nem floresce, por circunstâncias de tempo.
E que tal adentrar um palácio real, habitado por um príncipe e uma princesa, ser recebido por eles, olhá-los bem de perto, sentir-lhes o perfume, conversar, tocar-lhes as mãos!? A memória do perfume de uma princesa não morre jamais. Quem nos honrou com essa recepção foram eles: o príncipe Akihito e a bela princesa.
Quando adolescente, andei mentalizando algumas extravagâncias, como a de um dia ser recebido por uma princesa. Aconteceu! Toda a literatura que povoou minha mente infantil falava de princesas e fadas, e eu estava ali - plebeu nascido em beira-de-mato mas agora shimbunsha - experienciando a materialização do sonho.
Ao Palácio Imperial não incumbe tomar decisões, porque o sistema político japonês é parlamentarista, mas o Japão sem imperador seria como um Japão sem cerejeiras, sem o Monte Fujii, sem a cerimônia do chá, geishas e quimonos; sem o sushi, o sukiaki, a ikebana; sem o Teatro No e o Kabuki; sem o Hai-Kai e o sumô.
Recordo de um fato hilariante: um prefeito nikkey aqui da região, que estava junto, hesitava se devia entregar aos monarcas um álbum mostrando a pujança da agricultura em seu município. Afinal criou coragem, e o príncipe e a princesa folhearam o álbum, interessados, mas iam virando as folhas de traz para diante, como toda publicação japonesa. Começaram pelo fim e acabaram na primeira página, onde estava o retrato do garboso prefeito. O acaso ensinava-lhe a lição de que o governante deve ficar sempre por último...
Já antes, certo dia o prefeito desligara-se do grupo para visitar parentes. Era recomendação de seu velho pai. E, no Japão, aos parentes que chegam de longe são oferecidas sempre as mais finas iguarias. Uma delas o supom. É sangue de tartaruga abatida em presença do convidado, e por isso servido quente e borbulhante. E assim deve ser bebido. Foi o que lhe serviram. O prefeito ainda tentou dissimular, mas lembrara-se do respeito à tradição dos ancestrais e do que lhe havia recomendado o velho pai.
De volta ao grupo, ele era outro. Havia experimentado aquele elixir dos deuses e ficara meio misterioso, parecia iluminado...
E, algumas horas depois de havermos jantado num navio-restaurante de cinco mil luzes, ancorado ao largo e ao qual se chegava em lanchas que iam e vinham, tornei os olhos para a embarcação e vi que não se encontrava mais lá. Indaguei, e me explicaram que, terminado o atendimento, o navio desloca-se para limpeza e abastecimento da cozinha, e volta na noite seguinte. Ao invés do freguês ir embora depois da refeição quem ia era o restaurante...
Nas lojas, meus amigos faziam compras. Se o preço era alto, reagiam com um ái, e imediatamente o balconista embrulhava a mercadoria e a entregava. Eles estranhavam isso, e então descobriram que ái queria dizer sim...
Em festa japonesa é costume cantar, dançar, tocar, declamar, e todos o fazem. Os que cantam já levam no bolso a fita de seu karaokê. Estávamos numa destas, em meio a saquês e sukiaki, servidos por delicadas geishas. (Um lembrete: festa com geisha é festa de nobreza; geisha gradua-se em universidade e é mais que artista, pois canta, dança, toca o shamizen, sabe da cerimônia do chá e como preparar o sukiaki - a delicadeza no mais elevado grau).
Estava presente o prefeito da cidade. De repente irrompe no pequeno palco um samurai, empunhando uma espada, profere um brado, os cabelos amarrados em coque, pés descalços, a vestimenta deixando à mostra as coxas rijas do guerreiro. E começou a lutar, ao ritmo de uma dança viril. O samurai era o prefeito.
Os políticos nossos que estavam presentes sentiram-se incômodos, e quando chegou a vez de eles subirem ao palco, não quiseram. Por vergonha, mesmo que velhos de palanque, ou sabe-se lá por algum resquício de pudor ou temendo as câmaras fotográficas. Pensei: político brasileiro tem vergonha de subir ao palco para cantar ou dançar, mas não tem para certas coisas que faz...
Reflexões. Que nos assomam se estamos atentos. Apenas reflexões, favorecidas pelo benfazejo entorpecimento provocado pelo saquê, pelo encantamento das geishas e toda aquela magia oriental.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


