Desesperada e demonstrando lágrimas a rolar pela face, Ernestina entrou na Redação do jornal anunciando que desejava fazer uma denúncia ao redator de ‘‘bons costumes’’. Como não havia e não há profissional para essa área específica (a matéria poderia, quando muito, ser acolhida no setor policial ou de comportamento) a ‘bomba’ foi cair nas mãos de Alfredo, que não vivia um dos seus melhores dias. Enquanto ele anotava, ela, perplexa, discorria sobre a desdita de ter sido assediada sexualmente. Justamente pelo seu dentista, Januário, recém-chegado à cidade e formando clientela. Mas quis conquistar ‘na marra’ os carinhos da honrada Ernestina, por quem a sociedade poria as mãos no fogo.
Experiente na profissão e curioso pela insistência da denunciante em vários pontos conflitantes, Alfredo decidiu conferir e, enquanto caminhava resoluto rumo ao consultório acompanhado de Ernestina, bolava mentalmente o título da reportagem que sairia no dia seguinte: ‘‘Dentista tarado ataca cliente’’, ‘‘Violentada na cadeira de dentista’’ ou ‘‘Dentista quis conferir virgindade’’. Januário quase desmaiou ao saber do objetivo da visita e, na acepção do termo, chorou de ódio ao negar a acusação da mulher. E perguntou. ‘‘Por que eu a assediaria se não faço isso mesmo em situações convidativas e com pessoas de fino trato?’’ E ela argumentou: ‘‘Então, quem era aquele galã perfumado que, sofregamente, me agarrou e com seu amplexo e ósculo profundo me fez ir quase ao orgasmo?’’ O dentista se limitou a dizer que ela estava delirando...
Enquanto se definia quem fizera o quê, Alfredo esgueirou por um quarto utilizado como depósito e, às vezes, refeitório e deu de cara com um garoto engraxate que lhe pediu silêncio e confessou que assistira a tudo, até a mulher ‘se oferecendo e pulando no pescoço do doutor...’’ Suspirando e feliz pela conclusão do caso, Alfredo retornou ao gabinete do dentista, que ainda dava mostra de contrariedade, e anunciou: ‘‘O doutor pode ficar descansado porque temos testemunha’’. E mandou o menino entrar e narrar o que vira. Mas Ernestina não esperou o final e, mãos no rosto para dissimular a vergonha, confessou que uma das suas fantasias sexuais era homem vestido de branco. Não podia ver ninguém de branco que sua cabecinha tecia cenas que a levavam ao êxtase.
Tempos depois Alfredo reencontrou o garoto, agora totalmente de branco, que explicou: ‘‘Gostei da confissão daquela mulher e parti para uma atividade que me permita andar de branco. Por enquanto entrego carne a açougues. Levo jeito?’’
- CARLOS DA SILVA é redator da ‘‘Folha de Londrina’’

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