Um dos primeiros edifícios de Londrina que poderiam receber o cognome de ‘‘balança mas não cai’’ era um sobrado, sempre amarelo, na esquina da rua Alagoas e avenida Duque de Caxias. Os ocupantes dos apartamentos viviam sob a constante marcação do proprietário, seo José, que quase nunca abandonava a vigilância em torno da honorabilidade do vetusto prédio. Ele alegava que não podia permitir que a propriedade recebesse apelido desairoso que caísse na boca da comunidade. Se isso ocorresse, adeus à moralidade. Construído no início da década de 50, quando nem havia motéis, o ‘‘balança mas não cai’’ abrigava rapazes do comércio, estudantes e jornalistas que davam os primeiros passos na profissão. Seo José era claro e objetivo: ‘‘Só alugo para homens. Se não isso vai virar bagunça. Aí eu fico no prejuízo.’’ Por isso mantinha-se a postos na porta (só havia uma) principal. Sentava-se numa cadeira rústica e ficava observando os que passavam. Com mulher a tiracolo, nem pensar, sentenciava.
Os moradores tinham que ser criativos para conduzir uma companheira ao apartamento. Seo José abandonava a área entre 23 e 24 horas. Quando ele se levantava e colocava a cadeira sobre as costas, as parceiras começavam a sair de onde aguardavam, esgueirando-se entre postes, carros, árvores e paredes. Havia até certo perigo de colisão na porta. Ele residia nos fundos, no que seria o segundo andar. Enquanto não subisse a escada persistia o temor de ele retornar e flagrar um morador.
Armavam-se esquemas inéditos para introduzir convidada num apartamento. Ela se aproximava lentamente enquanto o locatário mantinha diálogo com o locador. A conversa mole era destinada a remover dali o seo José. Nada como dizer-lhe que pretendia verificar, a pedido de amigos, detalhes dos apartamentos disponíveis no nível inferior do prédio. O interessado pretendia mudar-se no dia seguinte... Em certa madrugada, Geremias foi acordado por Clodoaldo, que implorou: ‘‘Pelo amor de Deus, estou com cinco garotas no apartamento. Leve umas duas para você.’’ A resposta foi negativa: ‘‘Lamento. Já estou com duas.’’
Na noite seguinte, buzinaço na esquina, seis carros, gritos e invasão de bichas e mulheres vulgares. Protestavam contra um tal de Alfredo, que esquecera de pagar a conta numa boate. Ele preferiu emitir um cheque global, para evitar intervenção do seo José. Tentou justificar: ‘‘Devia pagar com dinheiro falsificado. Quem veio comigo nada tinha de mulher.’’
- CARLOS DA SILVA é redator da ‘‘Folha de Londrina’’.

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