Gaudêncio Torquato
Grampos, CPIs, denúncias sobre desvios éticos, falta de autoridade do presidente da República, brigas entre ministros, pedidos de impeachment e até as reformas tributária e do Judiciário, em curso na Câmara Federal, constituem, entre outros, os eixos de um monumental sistema de formação e energização da opinião pública, cujos reflexos se farão sentir no processo eleitoral de 2000 e 2002.
O País, infelizmente, está começando muito cedo a abrir as portas do cenário presidencial. Fatores causais - como o esgotamento antecipado do governo Fernando Henrique, a tibieza de conduta do presidente, a desordem interna do conjunto ministerial, a precária aliança das bases governistas, o personalismo de nossos perfis políticos - ameaçam a meta da estabilidade e do fim do processo recessivo que já se distingue.
É muito cedo para se arriscar previsões. Mas não há como deixar de lado o horizonte fascinante das perspectivas, se a sucessão de Fernando Henrique é uma nota comum em todas as conversas, das rodas de empresários às mesas de botequim. É possível, até, que o presidente tome os freios da administração, faça uma profunda reforma ministerial, mostre sua capacidade de surpreender e consiga repor a idade biológica de seu governo no espaço psicológico e tempo adequado. Como isso ainda não ocorreu, restam os cenários frios de amanhã descritos com a temperatura quente de hoje. O que ocorreria com os partidos que formam a base governista?
O primeiro deles é o cenário azul brilhante. Fernando Henrique faz um segundo mandato maravilhoso e aumenta o índice de felicidade bruta da Nação. Os tucanos apresentarão uma candidatura tão imbatível que conseguirão, mais uma vez, atrair as forças dos grandes partidos. Até o PFL continuaria na aliança. Possibilidade desse cenário: remota.
O segundo é o cenário amarelo desbotado. O Executivo consegue ser apenas razoável. Possibilidade: bem provável. Nesse caso, diversas alternativas se apresentam. A primeira: cada grande partido terá candidato (PFL, PMDB e PSDB), além da candidatura do PT e de outros partidos de esquerda. Segunda: PFL e PMDB formarão uma aliança para disputar contra os candidatos tucano e das oposições (PT, PDT e outros partidos de esquerda). Terceira: PSDB e PMDB formarão uma aliança para enfrentar o candidato do PFL e o das oposições.
O terceiro cenário tem a cor vermelha. O Executivo sai com a imagem extremamente desgastada. Possibilidade: razoável/média. Algumas posições podem ser imaginadas. O PSDB cede o lugar de cabeça de chapa para o PFL ou para o PMDB, contanto que, nesse último caso, o nome não seja o de Itamar. A segunda alternativa é a de formação de uma ampla frente de grandes partidos (PFL, PMDB, PPB, PTB) para enfrentar a candidatura tucana e o candidato das esquerdas. A terceira alternativa é a de candidato próprio dos grandes partidos. Nesse caso, Itamar tem chances de ser o candidato do PMDB.
No PSDB, os candidatos não passam de quatro: Mário Covas, José Serra, Tasso Jereissati e Paulo Renato. Covas manterá a chama de candidato, mas Serra poderá ser o escolhido. No PFL, os nomes são: ACM, Jorge Bornhausen, César Maia. ACM é a maior referência, mas poderá ceder lugar a outro. No PMDB, os nomes abrigam Itamar, Sarney, Michel Temer, Jáder Barbalho. Itamar é a maior referência, mas poderá ser alijado pela cúpula partidária, dependendo da cor dos cenários. No PT, os nomes incluem Lula, Mercadante, Cristovam Buarque, Tasso Genro. Ciro Gomes continuará a ser a grande estrela do PSB. O fator surpresa toma a direção do impetuoso governador do Rio, Anthony Garotinho, que poderá ser candidato das oposições e até do PMDB, caso não aguente mais a convivência com Leonel Brizola.
Os citados acima têm chances de integrar a chapa presidencial, como vices, ficando à disposição das composições partidárias, e também podem ser candidatos ao governo de Estado, como é o caso de Michel Temer, em São Paulo. A moldura poderá se alterar com os resultados das eleições municipais de 2000. Novos componentes poderão entrar no tabuleiro. Mas os perfis acima certamente estarão mexendo as pedras do jogo.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
E-mail: [email protected]

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