Cenários de verão - Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
O PFL não gosta do PSDB, que não gosta do PMDB, que não gosta do PFL. Os três grandes partidos da base governista estão em pé de guerra e o motivo é a sucessão presidencial. Mas o PSDB precisa do PFL e ambos precisam do PMDB para preservar as condições de vitória da atual aliança que poderá ser restabelecida para a eleição de 2002. O PSDB, para se manter na cabeça da chapa, quer ampliar os espaços e tomar os lugares do PMDB no ministério, usando o desgaste que envolveu o ministro Padilha, dos Transportes, e o DNER. Só que o partido tucano precisa do PMDB para garantir Aécio Neves na presidência da Câmara, depois do mandato de Michel Temer. E o PFL já trabalha para colocar, mais uma vez, Inocêncio de Oliveira, na cadeira de Temer. Esse é pano de fundo que dará a tônica da política nos próximos meses.
Os tucanos cardosistas trabalham com a hipótese de recuperação do prestígio do governo, a partir da retomada do crescimento nos meados do próximo ano. Com tal hipótese, pensam em recriar a aliança governista, convocar seu principal candidato, Tasso Jereissati, para comandar um ministério forte e apaziguar as rusgas entre os aliados. O problema é que o PMDB considera quase esgotada sua cota de paciência e resignação ante as intermitentes investidas do PSDB. Sua permanência na moldura governista vai depender da situação da economia e do clima sócio-ambiental, análise que deverá ser feita a partir de março/abril de 2000.
Para compensar os peemedebistas, há quem imagine uma chapa com o nome de Michel Temer na vice-presidência, deslocando-se Marco Maciel para o Senado ou um cargo importante no novo governo. Antônio Carlos Magalhães, o grande nome do PFL, parece conformado com a hipótese de seu partido vir a integrar novamente o leque situacionista, desistindo da candidatura própria, ao fazer uma análise pragmática da situação. Ele sabe que dividiria os espaços do centro e da direita, fracionando a base aliada e permitindo avanços da esquerda.
O PMDB, por sua vez, também pensa em candidatura própria, sendo pouco provável o nome de Itamar, não pelo lado das possibilidades e sim pelo estilo e temperamento incontrolável do ex-presidente. Mas o partido também se sente confortável na posição de pêndulo, direcionando-se para um dos lados e ampliando as condições de vitória do candidato escolhido.
Não causará surpresa se emergir com força a terceira via brasileira. Essa via seria formada pela aliança entre PMDB, PPS, PSB e PDT, ou seja, um imenso espaço de centro e centro-esquerda. Se Tasso não for candidato, a opção Ciro ou Garotinho será estudada. A terceira via não é de todo improvável, sabendo-se que o PT não morre de amores pelo PDT e que os outros partidos o PSB de Luiza Erundina e o PPS de Ciro Gomes querem distância do Partido dos Trabalhadores.
Essa aliança, aliás, pode viabilizar o nome de Luiza Erundina à Prefeitura de São Paulo, uma das alternativas, se não a mais forte, para deixar Marta Suplicy, do PT, estimagtizada nas margens. Caso isso ocorra, a mesma aliança poderá ser recomposta no pleito ao governo estadual em 2002. O candidato dessa aliança seria Michel Temer, caso não figurasse na chapa majoritária federal.
Na área do PPS, trabalha-se ainda firmemente pelo nome de Ciro Gomes, que fez um recuo tático, depois de ter se exposto em demasia. Mas Ciro só entrará em campo, caso o amigo Tasso decida ficar na arquibancada. Os dois fizeram um pacto nesse sentido. Garotinho, por enquanto no PDT, estará subindo no ranking, em função de seu temperamento agressivo e grande domínio de mídia. A falta de densidade conceitual pequena bagagem e acentuada informalidade com viés de deslumbramento poderá prejudicá-lo.
O tucano Mário Covas ficará atribulado com as coisas quentes de São Paulo, o cuidado com a saúde e a vontade de curtir os netos. Não quer voar mais alto. Jaime Lerner, governador do Paraná, do PFL, é regionalista e sem carisma. ACM tem dificuldades de entrar no Sudeste. José Serra, do PSDB, é preparado, tem estrutura, mas é antipatizado. Em um cenário de caos e desagregação social, as possibilidades do PT aumentam. Mas Lula garantirá o pique ou deixará a bola com Cristóvam Buarque? Há mais perguntas que respostas no ar.





