Cena de sangue num bar da av. São João - Paulo Briguet
O pensador estava certo: entre sangue e fezes nascemos. Depois veio o poeta Eliot e resumiu a história, sem dó: Birth, copulation and death. São Paulo é um dos lugares menos apropriados para nascer em todo o mundo - e falo com conhecimento de causa. Entretanto, ali se dá à luz, ainda que esta seja artificial. Depois, existe a infância. Há quem ouse passá-la numa cidade em que atravessar a rua é tremendo risco de vida. Céu melado, sol encoberto, garoa romântica e poluída, prédios cinzas, pombas infectadas, cinemas ótimos, aquela maravilha que é passar a noite no Bexiga, Pitta prefeito, três horas do trabalho para casa - entretanto coloquei na ficha do banco, item naturalidade: paulistano. Que adotou Londrina para todo o sempre.
Passei a infância no Centrão de São Paulo, que os paulistanos chamam de cidade, como se tudo em volta não o fosse. A Avenida São João - não adianta fugir - é minha Perspectiva Nevsky, minha Rua Arbat, minha Praça da Paz Celestial, meu Brooklyn, meu Quartier Latin, minha Berlin Alexanderplatz, minha Ipanema. O escritor Henry Miller disse a respeito de sua musa June: Ela hoje é uma velha desdentada, mas acho que a amo mesmo assim. É como eu me sinto diante da São João. Lênin não deveria se lembrar com tanta ternura da Estação Finlândia como eu lembro da maldita e purulenta avenida.
Meu pai andava muito comigo por lá; era um passeio privilegiado na infância. Ele havia morado na Casa do Estudante, antes da construção - pelo Maluf, é claro - do Minhocão, e contava no passeio antigas peripécias estudantis no Centrão, anos 60. Entre os personagens da época, tão alegres e endiabrados, dentro da mais frenética loucura, estavam Arno Preis e João Leonardo. Ambos morreriam pela força da repressão nos anos 70. Uma vez, Arno jogou o revólver de um soldado impertinente no meio da avenida. Falava sete línguas e tinha caráter de ferro.
Quem sabe, nesses passeios, eu não topei com Cláudio Abramo, andando apressado em direção à Folha de S. Paulo, sem saber que ele seria hoje meu grande ídolo no jornalismo. Se houvesse uma máquina do tempo, quanto coisa a dizer para Abramo! E quem sabe acompanhá-lo numa visita a um sebo com minúscula entrada. Mas, quando você entra, o sebo não parece terminar. É um corredor quase infinito de livros e poeira. Abramo conheceria o lugar? Não sei; sou interrompido pela memória. Olha aquele bar ali: foi onde eu comemorei minha dispensa do Exército, comentava meu pai. Ele comenta sempre que passamos por lá.
Hoje há pouco tempo para ir a São Paulo com o velho - o trabalho ordena que eu fique em Londrina. Mas quem sabe não teria acontecido naquele mesmo bar o nascimento da criança incógnita, que exigiu nascer no asfalto úmido e rachado daquela via neurótica. A Avenida São João ainda acolhe nascimentos, como tem acolhido mortes e cópulas, basta a ver o movimento das prostitutas e policiais à noite.
Na última vez em que estive em São Paulo, com dois amigos, tomamos táxi dirigido por um português boa-praça. O motorista teve que parar numa batida, no Largo do Arouche. Houve a delicadeza habitual da Polícia Militar: revólveres na cabeça, mãos sobre o capô, calças revistadas. Um espirro seria equivalente ao tiro fatal. Depois, mais calmos, eles deram a explicação: estavam zelando pela nossa segurança. Ah, bom! A cicatriz no rosto do policial risonho, tão simpático após a truculência, brilhava na penumbra - ele teria lembranças do Carandiru?
Ainda lívidos de susto, fomos à recuperação num bar da avenida São João, ali perto. Prostitutas, travestis e figurinhas da noite nos pareciam bem menos ameaçadores do que os PMs. O velho sempre me disse: se você tem coragem de estar lá, todos irão respeitá-lo. Deliciosa cerveja na última madrugada da Avenida São João. Quem pode dizer que o nascimento não aconteceu naquele bar e lanchonete? O fato é que a menina foi recebida e apresentada à luz por uma inexplicável solidariedade dos frequentadores do boteco. Um dos clientes - supremo gesto de delicadeza - tirou a jaqueta e com ela protegeu a nova paulistana. Nem Paulo Vanzolini esperava por essa. A cena de sangue, desta vez, foi o princípio, não o fim.
- PAULO BRIGUET é jornalista da Folha.Paulo Briguet
Uma mulher deu à luz uma menina ontem de manhã em uma lanchonete da Avenida São João (centro de São Paulo). O parto foi feito por fregueses e assistido por um funcionário e um dos donos do bar. (Matéria publicada em 14 de agosto de 1998.)





