Uma hora e meia de trabalho. Pá, vanga e picareta afundam na terra vermelha com energia até formar o fosso retangular de 1,30 metro de largura, 2,10m de extensão e 1,20m de profundidade.
O caixão desce definitivamente. É coberto pela terra revolvida até que um pequeno monte se forme, se transformando em um totem, um marco onde geralmente é fincada uma cruz cristã.
O ''bairro'' mais pobre do Cemitério Jardim da Saudade, na Zona Norte, reproduz a realidade urbana dos vivos. Fica na periferia sul, no setor mais acidentado e mais remoto, um terreno anexado recentemente na área total de cinco alqueires, onde estão 20 mil sepulturas.
A nova fronteira de sepulturas já está bem próxima ao muro que a divide da cidade viva, como se avisasse que o Jardim da Saudade está bem próximo da saturação.
O ''bairro pobre'' do cemitério é uma área reservada para os sepultamentos que a Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf) chama de ''isento de custas''. Somente até o dia 31 de agosto, último levantamento, foram sepultados na cidade 312 adultos e 46 crianças através deste benefício. Os R$ 311,00 (R$ 70,00 para crianças) que custariam o serviço, informa o presidente da Acesf, Wilson Battini, são bancados indiretamente pelos outros clientes.
Mas se o poder público e a comunidade são capazes de ajudar um londrinense pobre a ter um funeral digno, o mesmo esforço não é capaz de garantir calor humano e reverência na cerimônia de sepultamento, momento geralmente associado a um ''termômetro'' de popularidade.
É lá na baixada do Jardim da Saudade que se pode conferir a melancolia dos sepultamentos sem testemunhas, ou dos com única testemunha. ''É sempre uma coisa triste. Mas um enterro sem ninguém é muito mais'', conta o coveiro Adhemar Borges da Cunha, 54 anos, um homem que não se furta em fazer o sinal da cruz antes da ''última pá de terra'' somente com o objetivo de amenizar um cenário tão patético.
Cunha já foi professor primário de escola rural, vendedor das Pernambucanas, vendedor de barco, bicicleta, equipamentos de camping. Também já foi viajante e andou com catalógos e pastas 007. Era época do sorriso, uma obrigação profissional. Há nove anos ganha a vida assistindo e fazendo funerais. Na jornada mais hercúlea, chegou a cavar 17 sepulturas em apenas um dia. ''É meu recorde'', orgulha-se.
Quando o carro da funerária aponta na entrada do cemitério e passa a circular nas alamedas do Jardim da Saudade, o coveiro interrompe seu relato. Parte rumo a sepultura aberta e já concretada. Desta vez, não há tristeza extra. O cortejo é seguido por uma pequena multidão. Não falta nada: choro, vela, oração, ombros amigos e palavras reconfortantes.
Os brasileiros que tiveram sua condição carente eternizada (na verdade, os espaços são rotativos, depois de três anos, o que sobrou do cadáver é transferido para os dois ossários do cemitério) em um sepultura primitiva não poderiam se orgulhar da situação.
Mas comparado a outro grupo os que perdem a vida e cuja identidade ou a família não são encontradas podem se considerar privilegiados.
Mesmo sem vida no corpo, este grupo de desafortunados prolonga sua atuação na sociedade e ajuda os vivos a agregar mais conhecimento científico. Seus ossos, tecidos, veias, órgãos e membros vão parar nos laboratórios de anatomia. Nesta página, entenda como isso acontece.

mockup