A globalização caminha a passos largos como a grande regra econômica da virada do século e, no Brasil, transformou-se no eixo maior para projetos, planejamentos e investimentos privados e públicos. Os parâmetros para análise e tomada de decisões passaram a ser substituídos pelas novas ‘‘fronteiras’’ que regem o mercado mundial. É, seguramente, a maior mudança na cultura empresarial brasileira, talvez a mais importante desde o fim da dependência colonial.
Mas, infelizmente, as mudanças não alcançam todos os níveis que poderiam e deveriam. Falta-nos, nesse processo de reeducação da cultura produtiva, descobrir (ou redescobrir) o valor de um elemento-chave na economia brasileira até hoje colocado numa injusta condição de marginalidade: a indústria informal, que foi o grande berço de corporações hoje muito bem sucedidas.
Ainda pequenas ou atualmente ‘‘gigantes’’, estas corporações nasceram no fundo do quintal, combinando trabalho árduo, humildade e ausência de estrutura administrativa ou burocrática. Uma célula cuja essência é produzir e desenvolver produtos próprios e cujos primeiros anos representam, sem exceção, um duro aprendizado e uma prova de resistência. Um exemplo mundial de empresa que nasceu nesse condição é a Mercedes Benz. No Brasil e no Paraná, temos milhares delas, em todos os segmentos possíveis. Todas com perfil e história diferentes, mas um início em comum.
Mas o que teria a ver a globalização com a indústria informal? Tudo, em síntese. A começar pelo mergulho que podemos fazer, somente agora, em outros modelos produtivos bem sucedidos pelo mundo a fora. Entre os melhores deles temos a Europa. Alemanha, França e Itália são alguns núcleos de produção em pequena escala mas de alta qualidade.
O Norte da Itália, que os paranaenses passaram a conhecer melhor a partir da irmandade entre Londrina e Módena, tem grande parte de sua economia baseada em microprodutores. A maioria organizada em torno de famílias e assistida por programas e legislações especiais. O resultado para esses países ou regiões é uma economia estável, nível de poupança elevado e distribuição de renda muito próxima do ideal.
No Brasil, cometemos o erro de ainda olharmos a produção industrial informal como uma geradora de problemas, de concorrência desleal e sonegação. Um equívoco conceitual que começa pela confusão infeliz que se faz entre comércio informal e indústria informal. E também entre a indústria informal e o artesanato.
Muito elementares, estas distinções devem ser ressaltadas em meio às mudanças que vivemos. O comércio informal é um modelo de revenda de produtos cuja origem pode ser a mais adversa e sobre o qual não há como exercer qualquer tipo mais efetivo de controle. O artesanato, por sua vez, é um sistema de produção em pequenas quantidades no qual se emprega cerca de 80% de mão-de-obra. Nesse caso, o uso de máquina, quando ocorre, representa não mais do que 20% da força produtiva. Ou seja, não há, em momento algum, o que chamamos de produção em escala.
Já a indústria informal tem pelo menos 80% de sua produção baseada no uso de máquinas. Trata-se de um sistema produtivo com a presença maior de equipamentos e menor de mão-de-obra. Temos, nesses casos, uma verdadeira escala industrial de produção, mesmo que o volume seja infinitamente menor que o das grandes corporações instaladas nos grandes galpões que vemos no mundo todo.
Esse perfil revela também que o caminho natural da indústria informal é o da evolução, do crescimento, do desenvolvimento. É o que se observa nos países europeus mais estáveis e o que pretendemos pôr a público no Brasil.
Só que o trabalho do industrial informal precisa ser corretamente visto e devidamente reconhecido. Ele trabalha em casa, junto da família, atende o telefone e mantém, sob vigilância permanente, todas as fases da produção. São pessoas que têm aquela atividade no sangue, que vivem o trabalho e do trabalho feito dentro de casa. A maioria desenvolve seus próprios equipamentos, por não ter condições de adquirir máquinas e porque seus produtos têm sempre uma uma identidade muito própria.
Por outro lado, enfrentam dificuldades para colocar seus produtos no mercado, já que não podem fornecer para grandes empresas por não terem como emitir nota fiscal. Nessa condição, são muitas vezes explorados por maus comerciantes, que se valem da fragilidade do industrial informal para pagar preços baixos ou, simplesmente, deixar de pagá-lo. Sem contar que esses produtores são obrigados a viver à margem da economia por não terem suporte necessário para legalizar a atividade.
Felizmente, no Paraná pudemos ver nascer e crescer uma entidade específica para defender estes pequenos produtores e dar a eles o espaço justo no cenário econômico. A Associação do Desenvolvimento da Indústria Informal do Paraná (Adipar) está executando esse trabalho, que começou pelo convênio firmado com a Secretaria da Fazenda do Estado e com a Coordenadoria da Receita Estadual.
Com um conjunto de regras específicas, as autoridades do Paraná entenderam e atenderam essa categoria e dão a esses produtores o suporte necessário para a transição para a legalidade. Trata-se de um início acertado em todos os aspectos. O Estado passou a poder identificar esses produtos e ter, através da emissão de notas fiscais de matéria-prima, uma considerável arrecadação fiscal num universo onde até então isso não ocorria.
Para os comerciantes, o produtor informal passar a ser uma excelente opção como fornecedor, por ter sua produção próxima, um sistema de trabalho desburocratizado e toda a maleabilidade necessária. Para a economia, passamos a fortalecer um segmento de grande potencial de emprego e produção. E, para o próprio industrial informal, a marginalidade deixa de existir e o caminho para o crescimento e a formalização é seguro e curto.
O Paraná é o único Estado a abrir este novo horizonte. A mudança desse conceito já começou, mas ainda precisa ser verdadeiramente assimilada por autoridades, entidades e pela comunidade. Uma grande oportunidade para isso será o 1º Workshop da Indústria Informal Paranaense, que será realizado em Londrina em 6 de novembro. Será o primeiro grande evento para mostrar essa realidade e para difundir o verdadeiro conceito em torno da indústria informal.
- FRANCISCO NEGRI é industrial formal em Londrina e presidente da Adipar

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