CELIBATO - 'Precisamos mudar sem abrir mão do essencial'
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
A polêmica em torno do celibato sacerdotal veio novamente à tona no início do ano, quando foi divulgado que o Arquivo Secreto do Vaticano mantém cópias das propostas feitas por bispos brasileiros sobre a ordenação de homens casados. Os papéis estão conservados desde a última sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, em 1965. Os últimos papas proibiram a discussão do tema.
O celibato se tornou obrigatório no século 12, com o intuito de que os sacerdores se dedicassem integralmente ao serviço do Evangelho. Se temia o risco de filhos de padres casados serem considerados herdeiros dos bens eclesiásticos. O tema, no entanto, é alvo de polêmica até hoje.
O celibato é um valor que sempre estará vivo na Igreja. Mas, ao lado de padres celibatários, é conveniente a ordenação de homens casados para atender com urgência as comunidades carentes de Eucaristia, afirma dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC) e integrante da subcomissão de bispos eméritos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Nesta entrevista concedida à FOLHA, dom Angélico reivindica que o Vaticano abra o debate sobre o celibato e enfatiza que a linguagem e os métodos de evangelização devem ser mudados, uma vez que os parâmetros culturais de hoje são outros. Precisamos mudar muitas coisas sem abrir mão do essencial, pontua.
O Arquivo Secreto do Vaticano mantém cópias das propostas feitas por bispos brasileiros sobre o celibato dos padres desde 1965. O papa Bento VI, na época, proibiu a discussão do tema, que causa polêmica nos dias atuais. Por que o Vaticano não aceita nem mesmo debater o assunto?
O celibato é um valor evangélico. Jesus foi celibatário. Na história da Igreja sempre tivemos a prática, a vivência e o carisma do celibato. No entanto, a Igreja Católica Oriental (que conserva as seculares tradições litúrgicas e devocionais do oriente) tem padres casados.
O livro Catecismo da Igreja Católica traz que todos os ministros ordenados na Igreja latina, com exceção dos diáconos permanentes, normalmente são escolhidos entre os homens fiéis que vivem em celibato e pretendem mantê-lo por causa do reino dos céus. No livro consta também que nas igrejas orientais está em vigor há séculos uma disciplina diferente. Enquanto os bispos só são escolhidos entre os celibatários, homens casados podem ser ordenados diáconos e padres.
Em 1965, no entanto, na última sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, o tema não foi considerado pertinente para discussão. Naquele momento não era necessário debater o assunto.
Mas passados mais de 45 anos a discussão sobre o celibato não se tornou necessária?
Dom Claúdio Hummes, em 2006, quando foi nomeado prefeito da Congregação para o Clero, deixando de ser bispo de São Paulo e partindo para Roma, falou que a Igreja talvez venha a ter necessidade de lançar mão da ordenação de homens casados para serem padres. Tem um bispo na África do Sul que diz que nas comunidades católicas surgirão homens com vivência familiar, comunitária e profissional que poderão receber o convite para serem ordenados padres num futuro não muito remoto.
E qual a sua opinião sobre o celibato dos padres?
O celibato é um valor que sempre estará vivo na Igreja. Mas, ao lado de padres celibatários, eu acho conveniente que tenhamos homens missionários de Jesus, bem casados e realizados profissionalmente, que possam ser ordenados padres para atender com urgência as comunidades carentes de Eucaristia.
O senhor acredita que o Vaticano pode futuramente discutir o tema? Há a possibilidade da Igreja Católica, algum dia, ordenar homens casados?
Claro que há essa possibilidade. Eu, por exemplo, estou conversando sobre o assunto com liberdade. Acredito que futuramente o assunto será debatido no Concílio Ecumênico no Vaticano.
Aceitar homens casados como padres pode ser uma forma de atrair mais fiéis para a Igreja Católica?
A minha preocupação maior está em reunir os fiéis em torno da mesa eucarística, que é o princípio da comunidade cristã. Eu não vejo com tranquilidade milhares de comunidades carentes de presbíteros no Brasil e na América Latina. Nós podemos solucionar esse problema. Por isso, acredito que vai chegar um momento, espero que não seja tarde demais, que essa discussão vai começar a acontecer.
Um dos argumentos é que o homem casado não vai poder se dedicar tanto à comunidade quanto um padre celibatário, uma vez que terá que se preocupar com a sua família. O que o senhor diz sobre isso?
Este argumento é verdadeiro, mas o Concílio Vaticano II reintroduziu na Igreja de rito latino a existência do diácono permanente, que é um homem casado que exerce o ministério em muitíssimas comunidades. O presbítero casado deverá zelar pela sua família, mas terá tempo para a comunidade. Há milhares de leigos com emprego e família, que realizam um trabalho maravilhoso nas comunidades.
A recusa da Igreja Católica em discutir temas como o uso de métodos contraceptivos e o próprio celibato não acaba distanciando os fiéis?
Estamos vivendo em uma nova época, em que os parâmetros culturais são outros. Por isso, a linguagem e os métodos de evangelização devem ser mudados. O papa João Paulo II chamava a atenção para a necessidade de uma nova evangelização, um novo vigor, novos métodos e novas manifestações. O papa Bento 16 acaba de constituir uma comissão em Roma para tratar justamente dessa nova evangelização. Precisamos mudar muitas coisas sem abrir mão do essencial.


