Cecil e o imbecil
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de agosto de 2015
Reginaldo José da Silva 
Repercussão mundial para o fato ocorrido no fértil planalto da África Austral Zimbábue: um norte-americano paga quase duzentos mil reais em (mais) um dos seus programas estúpidos de caçada a grandes animais. É verdade que é preciso também levantar a voz a favor dos animais por aqui, mas a forma como repercutiu o episódio é certamente um alento.
A colonização do Zimbábue ocorreu sob coordenação do inglês Cecil Rhodes, e o fato de a presença ter sido inglesa não mudou a história do país para um cenário de riqueza, como muitos imaginam que seria por aqui caso fôssemos colonizados por ingleses ou franceses. Mas, raros no país africano conhecem o colonizador. Ouvir o nome Cecil remete mesmo, para toda a nação, ao leão famoso, objeto de estudo da Universidade de Oxford, mais que isso, celebridade, símbolo do país. Nutriam pelo animal um conjunto de valores, que o caçador estadunidense parece ser incapaz de compreender. Afinal, ao atrair o leão, como isca, para fora da área do Parque Nacional Hwange, atingi-lo com arco e flecha e após a perseguição, a agonia e o sofrimento de 40 horas, abatê-lo a tiro, arrancar-lhe a cabeça e a pele e ainda, tentar, sem sucesso, destruir o aparelho de GPS que o monitorava, demonstra total falta de respeito aos animais.
O comportamento humano de se deliciar com caçadas e maus-tratos a animais (rodeios, farra do boi, aves em gaiolas, animais confinados...) fundamenta os dados da ONG WWF (Fundo Mundial para a Natureza), segundo os quais, em 40 anos, a humanidade dizimou mais da metade de todas as espécies conhecidas de peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Não se trata de caso pontual. O desrespeito não é contra um animal. É uma incapacidade de respeitar a sociedade como um todo. É o avesso de Nova Deli (Índia) de onde o mundo conheceu, recentemente, decisão do judiciário, que assegura a todos os pássaros o direito de viver com dignidade fora de gaiolas, voando livremente.
A ideia de androcentrismo, subjugação feminina e patriarcalismo devem estar no centro de comportamento tão imbecil. Alguém já disse que não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos. Assim, até o belo Rei Leão (da Disney) passa a mensagem de defesa do patriarcado. Aqueles que precisam demonstrar virilidade em suas condutas, e como alguns necessitam! De modo diferente, e incompreensível para os homens, as fêmeas leoas ou mulheres apresentam um misto de sentimentos, de compaixão, de intuição e de cooperação. Esses sentimentos são fundamentais para a preservação da espécie. Sem eles, caminha-se rapidamente para a extinção.
Assim, esses valores precisam estar a favor do respeito e da preservação ambiental. Mas, em relação a respeito, que esperar daquele que não o tem sequer por animais abandonados nas ruas mais de 30 mil cães e gatos pelas ruas de Londrina? Onde fica o respeito frente à exploração animal de cavalos (nem sequer quantificados em nossa cidade)? Como falar em respeito sem um Centro de Zoonoses? Quem vê animais como meros problemas, sejam eles pombas-amargosinhas, cães, gatos ou cavalos vive no reino do desrespeito: aos animais, a si mesmo, à sociedade. Se a grandeza de um país e seu progresso moral podem ser avaliados pela forma como trata seus animais, como afirmou Mahatma Gandhi, a estupidez do dentista Walter J. Palmer, bem como a de tantos outros, que principalmente pela caça autorizada, reduziram nos últimos 30 anos a população de leões da África em 60%, mostra que o desenvolvimento moral tem ocupado o lado oposto do econômico. Entretanto, as mais de 700 mil assinaturas em uma petição que pede a extradição do norte-americano para que responda por seu ato, vão ao encontro do desenvolvimento moral.
O ótimo "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, sentencia resumidamente os sete mandamentos dos animais: quatro pernas bom, duas pernas ruim. Mas do mesmo modo que o "lema iguais" traz uns mais iguais que os outros, dentre os já ruins "duas pernas", uns são muito piores que os outros.
REGINALDO JOSÉ DA SILVA, é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e policial militar em Londrina


