A seleção da Confederação Brasileira de Futebol, comandada pelo dedicado técnico Tite, é nacional pela origem de nascimento dos seus atletas. Infelizmente não atuam no futebol nacional, emprestam os seus talentos na bola a clubes europeus. Dos 23 convocados para a Copa do Mundo, apenas três servem a clubes brasileiros. Duas dezenas de craques atuam além das fronteiras nacionais. É uma legião estrangeira de atletas dependentes e comprometidos com os milionários contratos e patrocínios multinacionais, proporcionados pelos seus clubes.

Apesar das torcidas apaixonadas pelos seus times, a seleção da CBF reflete a crise profunda que vive o futebol brasileiro. Paixão de milhões, mas torcedores que não enxergam os ídolos e craques dos seus times do coração vestindo a camisa da seleção nacional.

Os atletas são os menos culpados pela existência dessa realidade. Buscam, com razão, em uma atividade de vida curta, garantir melhores condições de vida para o futuro, quando aposentarem as chuteiras. Na sua maioria originária da periferia pobre. Fizeram com justiça do futebol o caminho das suas emancipações financeiras. São filhos de um Brasil em que a injustiça social, decorrente da marginalização econômica, os condenaria a vida vegetativa. Merecem respeito e admiração de todos os torcedores brasileiros.

Lamentavelmente o futebol no seu conjunto é dirigido e administrado a partir dos clubes (na sua maioria) por dirigentes que podem ser classificados de temerários. Anualmente a atividade movimenta bilhões de reais, não obstante os clubes apresentarem dívidas monstruosas. O amadorismo e o oportunismo predominam em muitas administrações clubísticas, onde a vaidade é marca registrada. Ao invés de direções profissionalizadas, prevalecem o improviso e a visão de curto prazo.

As federações estaduais são, na imensa maioria, ocupadas pelos oligarcas do esporte. Em diferentes regiões, há presidentes dessas entidades que ocupam o cargo já há mais de 40 anos. São dezenas e voto garantido nas eleições de entidade máxima. Mensalmente são premiadas com significativa transferência de recursos financeiras repassados pela CBF. Arrecadam ainda valores expressivos dos clubes filiados nos diversos campeonatos.

Já na superestrutura do futebol brasileiro está a CBF, com vários dos seus dirigentes envolvidos em casos escabrosos. Há anos o colunista da "Folha de S.Paulo", Juca Kfouri, a trata como Casa Bandida do Futebol. Nos EUA, está preso há dois anos o antigo presidente José Maria Marins, por corrupção ativa. O antecessor Ricardo Teixeira está homiziado no Brasil, não podendo ausentar-se do território nacional para não ser preso pela Interpol. O último presidente Marco Polo Del Nero, durante sua gestão, não pode ausentar-se do Brasil, sob pena de prisão igualmente por corrupção. E dirigida hoje por um vice-presidente do Nordeste, legítimo representante das oligarquias das Federações estaduais. A FIFA, entidade máxima do futebol mundial, na última Copa, no Brasil arrecadou U$ 5,1 bilhões, o equivalente a R$ 12,5 bilhões. O padrão FIFA foi muito bem definido pelo advogado Bruce Bean, professor da Universidade de Michigan (EUA): "A grande corrupção no futebol começou com a cobertura televisiva e a oportunidade de atrair patrocinadores." Os processos contra dirigentes da entidade e suas congêneres na Justiça norte-americana têm sua origem nesse festival de corrupção.

Agora, em ano de Copa do Mundo, os brasileiros amantes do futebol devem torcer pela seleção por ser paixão nacional, mas sabendo que a super e a infraestrutura desse esporte nacional e internacional são uma vergonha. É um retrato realista do futebol brasileiro admirado pelo mundo todo, mas comandado por dirigentes que o desonram. A seleção é um ponto fora da curva.

Edson Gradia, graduado em Odontologia e ex-secretário de Estado no Paraná

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