O Brasil assitiu, pelo Jornal Nacional, da TV Globo, uma das mais terríveis cenas de barbárie explícita de seu ciclo de modernidade. Cerca de 10 policiais, no papel de bandidos frios e cínicos, torturam pessoas, com socos e pancadas de cassetetes, matando um trabalhador com tiros de descaso, não dando a elas nenhuma possibilidade de defesa e sequer atenção às palavras súplices. A violência dos criminosos e a perplexidade das vítimas, de repente presas num círculo de pancadaria, acabaram de desnudar a capa de compromisso com os direitos humanos, que até agora cobria as imagens do governador Mário Covas e do secretário de segurança, José Afonso da Silva, um professor de Direito.
Não há como incriminar apenas o grupo envolvido no massacre. A segurança dos cidadãos, o equilíbrio social, a organização, os direitos e os deveres das polícias constituem deveres inarredáveis do Estado. E a reponsabilidade pela adequada aplicação das normas constitucionais recai sobre os ombros dos governantes, que, ao ganharem um mandato, transformam-se em guardiões das causas do povo que os elegeu, por um determinado período. No campo da cidadania e da defesa da integridade dos cidadãos, os deveres dos mandatários não se restringem à eventuais providências para averiguar ocorrências e punir responsáveis por crimes. Abrigam, antes, a organização das estruturas de segurança, com as consequentes definições de padrões de serviços, seleção e formação dos quadros, definição de valores e princípios e estabelecimento claro de linhas de comando.
Em matéria de segurança, São Paulo é um verdadeiro caso de polícia. Pois a violência desbragada continua a crescer no cinturão periférico, não havendo nenhuma diferença do estado de barbárie, que assinou o governo Fleury, quando São Paulo registrou o maior massacre de detentos no mundo. A segurança, em São Paulo, não assume caráter prioritário. A começar pela débil atuação do secretário de segurança, um respeitado professor de Direito colocado no lugar errado. Seu perfil não expressa forte comando. Se o comandante em chefe é fraco, a linha descendente segue os caminhos da tibieza. Não se sabe qual é o programa de segurança e não se conhecem os líderes do setor. O que sobra para o conhecimento público é uma polêmica sobre a discutível ação de se retirar das ruas mendigos, pessoas desempregadas ou que estejam sem documentos, numa imitação capenga do que se tem feito em Nova Iorque. E um programa marketing com nome de Tolerância Zero.
Não adianta punir soldados se seus comandantes são omissos. Em São Paulo, não se vêem nas ruas escalões superiores. Em compensação, programas populares de TVs abrem espaço para a ‘festa barulhenta’ de patrulhas policiais cercando pessoas, invadindo casas modestas empunhando revólveres sobre a cabeça de detidos, derrubados e algemados, e ainda obrigados a enfrentar a volúpia de repórteres policiais, não muito diferentes de vampiros famintos de sangue. Com artifícios como o da passarela da TV, onde policiais procuram imitar as extravagâncias da Swat, procura-se esconder a verdadeira face de polícias civis e militares, sem comando, sem doutrina, sem líderes, que, aos bandos, em viaturas novas - o único símbolo visível de alguma modernidade - violentam pessoas, invadindo sua privacidade, frequentemente culpando-as sem antes de qualquer prova. É um erro se combater o banditismo com a arma dos bandidos. Por isso, São Paulo é a última grande referência international da violência.
No massacre de Diadema, em São Paulo, os bandidos flagrados por uma câmera de TV deverão ser punidos. A punição não vai contribuir para melhorar a segurança. Funcionará como suave penitência da corporação aos olhos da sociedade. As autoridades até podem se sentir aliviadas com as explicações e inquérito. Mas queiram ou não, o governo e seu secretário já cavaram covas profundas no inferno. E ainda querem que o povo transfira sua polícia para o paraíso

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