Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Sobretudo cautela, em tempos difíceis como os que estamos começando a trilhar. Os produtores rurais devem estar atentos ao que pode ocorrer a partir de agora, quando o presidente da República inicia um novo mandato em meio a uma crise sem precedentes, que ameaça tragar a economia brasileira.
Não vem ao caso fazer uma análise da origem da crise, nem dos culpados pelo Brasil estar em tão más condições para enfrentá-la, a ponto de ser obrigado a recorrer à ajuda externa para não naufragar. O que interessa discutir é o cenário no qual viveremos os próximos meses. Ou até anos. Que a crise vai levar o País à recessão, que haverá dificuldades de toda a ordem - queda de produção, queda de renda, desemprego - as próprias autoridades reconhecem.
O presidente da República, em discurso alguns dias antes da eleição, descreveu o quadro sombrio, levantando a hipótese de ser obrigado a elevar os impostos, último recurso a que um dirigente democrata lançaria mão. Portanto, não há como duvidar que a tempestade chegou.
A crise pega o produtor rural no contrapé - descapitalizado desde o início do Plano Real, enfrentando uma defasagem cambial estimada em pelo menos 20% - que lhe tira o poder de competição externa e internamente - com recursos de crédito reduzidos, desatualizado tecnologicamente.
Some-se a estas condições o fato de que a crise tem abrangência mundial, significando que nossos mercados externos também passam por dificuldades. Os países asiáticos e a Rússia, que vinham se constituindo em bons mercados para os produtos agropecuários brasileiros, reduziram sua demanda.
Resumindo a situação: os mercados internacionais ficaram mais estreitos, menores. Em contrapartida, a produção mundial de alguns produtos importantes para nós, como é o caso da soja, do açúcar, suco de laranja, algodão, café, vai aumentar. O mercado internacional ficará, portanto, tumultuado pela concorrência de todos os países fornecedores interessados em colocar seus excedentes. Via de consequência, os preços ficarão menores.
O próprio mercado brasileiro enfrentará situação semelhante. Como nossas alíquotas de importação são baixas e as defesas utilizadas contra concorrentes externos são frágeis, outros países produtores, economicamente mais fortes, devem vir disputar conosco, em nosso próprio território. Como as condições de preço desses países - geralmente subsidiados - e financiamento são bem melhores que os nossos, será uma disputa difícil e desigual.
Há remédio para esta situação? Nas condições atuais, o governo tem pouco para nos ajudar, muito menos do que tinha em 1995, quando ele se aproveitou da grande safra brasileira para viabilizar o Plano Real, às custas do nosso prejuízo. Quando muito, pode utilizar os mecanismos de defesa contra a competição desleal, previstos no Acordo Mundial de Comércio, os quais o governo sempre tem relutado em lançar mão, mas que talvez o faça agora, premido pelas circunstâncias.
Pode, também, reduzir o ‘‘Custo Brasil’’, para tornar nossas exportações mais competitivas e reforçar nossa capacidade de enfrentar as importações, reduzindo as tarifas portuárias, melhorando as rodovias, retirando a carga tributária e compensando, de alguma forma, a defasagem cambial que ele próprio criou. Tudo isso não resolve, mas pode contribuir para amenizar a carga que pesa sobre os ombros dos produtores rurais.
Em todo caso, os produtores rurais devem se acautelar. Reduzam seus custos de produção: racionalizem seu trabalho, não se endividem além da capacidade de pagamento - e nunca entrem em financiamento a juros de mercado, porque isso seria um suicídio. Mantenham a atenção no mercado, procurando sinais nas cotações de transações futuras nas bolsas de mercadoria de todo o mundo. Procurem vender antecipadamente alguma coisa, para garantir um preço médio razoável para seu produto.
Temos que nos preparar para dias difíceis. É como se proteger de um furacão anunciado, cuja força pode nos destruir. Um dia a crise passa, mas só sobreviverão a ela os que souberem como enfrentar a tormenta, racionalizando a sua produção.
- ÁGIDE MENEGUETTE é presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná

mockup