Para garantir sua reeleição à Prefeitura de Curitiba, ameaçada pelo avanço do PT no ano passado, o engenheiro eletrônico Cassio Taniguchi (PFL), 59 anos, foi ‘‘obrigado’’ a registrar em cartório um documento em que promete cumprir o mandato até o fim. Seis meses depois, embora negue, o prefeito dá sinais de que pode correr o risco de quebrar a promessa.
Em entrevista à Folha, na semana passada, Cassio negou que esteja sendo assediado por PSC e PSDB, partido que ficou sem virtual candidato ao governo do Estado com a saída dos irmãos senadores Alvaro e Osmar Dias. Também negou que possa ser o candidato do PFL ao governo do Estado. Os nomes apresentados pelo partido até agora –Rafael Greca e Alceni Guerra, secretários do governador Jaime Lerner– não estão conseguindo boas colocações nas pesquisas preliminares.
Com a popularidade em baixa, Cassio elegeu dois inimigos: a oposição, capitaneada pelo PT, e o Ministério Público (MP). Em maio, o procurador Munir Gazal e os promotores Wanderlei Carvalho da Silva, Reginaldo Rolim Pereira e Margareth Ferreira denunciaram o prefeito, sete servidores municipais e dois empresários ao Tribunal de Justiça.
Eles são acusados de prorrogar, de forma irregular, um contrato com a Empresa Esteio Engenharia e Aerolevantamentos para a fiscalização de obras do Programa Linhão do Emprego. O MP pediu o afastamento do prefeito do cargo, sob a justificativa de que ele estaria obstruindo as investigações. Cassio acusou procurador e promotores de estar agindo sob orientação ‘‘político-partidária’’ e os denunciou à Corregedoria do MP. Sem citar nomes, o prefeito disse na semana passada que é vítima de ‘‘perseguição’’. Os principais trechos da entrevista são reproduzidos a seguir.
Folha – Quais foram as dificuldades políticas encontradas no primeiro semestre de seu segundo mandato?
Cassio Taniguchi – As dificuldades resultam de um rescaldo do período da campanha. Como a oposição não teve sucesso, obviamente ficaram ressentimentos. Já vi decalques dizendo ‘‘Faço parte dos 48%’’ (dos eleitores que não votaram no prefeito no segundo turno, em novembro do ano passado). Senti esse rescaldo nos últimos seis meses de uma maneira um pouco agressiva. Apelidaram de privatização a terceirização da administração das creches. Houve uma sequência da campanha. A mesma coisa que fizeram com o IPTU e com as multas de trânsito (durante a campanha) estão tentando fazer com as creches. Eles (a oposição) estão muito articulados para pegar qualquer coisinha.
Folha – A que o senhor atribuiu a queda de sua popularidade apontada pelas pesquisas?
Cassio – São esses resquícios de campanha, com certeza. Também durante esses seis primeiros meses nós fizemos um trabalho interno, sem nenhuma propaganda ou comunicação à população. Somente a partir de junho e julho, principalmente, estamos fazendo as audiências públicas e discutindo o plano de investimentos para o restante do mandato. Nesses seis meses, terminanos uma série de obras e iniciamos outras que estavam no orçamento. Estabelecemos todo o planejamento estratégico para os próximos três anos e meio. Fomos em busca de recursos financeiros. Temos uma perspectiva muito boa de obter R$ 260 milhões para investimentos. É um empréstimo externo junto ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Deve ser aplicado basicamente na área de estruturação urbana e no transporte coletivo.
Folha – Na sua interpretação, as pesquisas demonstram que o eleitor curitibano está decepcionado com seu segundo mandato?
Cassio – Não. Até porque 48% de ‘‘ótimo’’ e ‘‘bom’’ não é um índice tão desprezível assim. O que precisamos, a partir de agora, é desenvolver os projetos –após essa fase de desenvolvimento estratégico. Aí teremos uma visibilidade maior, ao atender aqueles pontos que a população apontou como críticos. Todos os indicadores sociais de Curitiba mostram que estamos muito bem. Somos a primeira capital em Índice de Condição de Vida (ICV) e a segunda em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), atrás de Porto Alegre.
Folha – Com a queda de sua popularidade, a tendência é o senhor intensificar o contato com a população, como as audiências públicas que vem promovendo?
Cassio– Venho fazendo isso nos últimos quatro anos e meio. Começamos com as prestações de contas. Decidimos as audiências públicas há três meses, antes de qualquer pesquisa.
Folha – De que forma a impopularidade do governo Lerner afeta o senhor?
Cassio – Respinga, por exempo, na questão da segurança, que hoje está crítica e é um dos pontos que mais preocupa a população. Isso não depende exclusivamente da prefeitura. Mas se não melhorarmos, em conjunto, a questão da segurança, isso vai continuar refletindo. Governo é governo. Para a população não interessa se é municipal, estadual ou federal.
Folha – Isso justifica o seu afastamento do governador?
Cassio – Eu não estou afastado do governador. Pelo contrário, participei de várias solenidades ao lado dele, até porque estamos desenvolvendo vários projetos em parceria.
Folha – O senhor e Lerner enfrentam um processo de desgaste maior no segundo mandato consecutivo. O que mudou: a qualidade dos governos caiu ou o eleitor se tornou mais exigente?
Cassio – O eleitor exige mais do administrador quando ele é reeleito. No primeiro mandato, sempre tem um período de tolerância. É como um treinador no primeiro jogo, sempre ganha um tempo da torcida. Costumo dizer que o segundo mandato não é uma continuidade do primeiro. Mudaram as prioridades. Há quatro anos, a prioridade eram a pavimentação, o saneamento. Agora, são segurança e moradia. Você não pode adotar a mesma estratégia para administrar a cidade nos dois mandatos. O maior problema que sinto hoje é o crescimento da Região Metropolitana de Curitiba. Hoje Curitiba está com 1,6 milhão de habitantes e os demais municípios da Região Metropolitana têm 1,1 milhão. Mais dez anos, a soma da população desses municípios vai ultrapassar à da capital. Toda a demanda social vai acabar em Curitiba, como já acontece.
Folha – Um dos principais fatores dessa metropolização exagerada foi a imagem utópica de ‘‘cidade modelo’’ criado pelo marketing do grupo político que o senhor integra...
Cassio – As pessoas só saem de seus locais de origem se não vêem nenhuma perspectiva lá. Talvez o grande investimento industrial recente motivou essa migração. Mas já antes da industrialização, a Região Metropolitana crescia a taxas gigantescas. O processo de industrialização foi no sentido de fortalecer os muncípios vizinhos a Curitiba para que eles criassem suas estruturas de vida e trabalho. A política de industrialização de 94 para cá também fortaleceu os pólos regionais do interior.
Folha – O senhor é pré-candidato ao Palácio Iguaçu em 2002?
Cassio – Não apareci em pesquisa nenhuma ainda. Se, já não sendo pré-candidato, o pessoal abre as baterias sobre mim, imagine se fosse. O negócio é ficar quieto...
Folha – O que significa ‘‘ficar quieto’’: não ter pretensões ou não divulgá-las agora?
Cassio – Primeiro, tenho um compromisso firmado em papel que seria prefeito até o fim do mandato (em 2004). Imagine (se saísse candidato), a oposição ia pintar e bordar em cima disso. O segundo aspecto é que acho que temos tanta coisa para fazer em Curitiba. É um desafio muito grande, mas gratificante.
Folha – Os atuais pré-candidatos do PFL ao governo –Alceni Guerra, chefe da Casa Civil de Lerner; e Rafael Greca, seu secretário de Comunicação– não aparecem bem colocados. O senhor se considera uma alternativa nesse cenário?
Cassio– É muito cedo para a corrida presidencial e ao governo. É prematuro discutir a sucessão agora. Os governadores estão em fase de maturação de seus investimentos e os prefeitos iniciando sua caminhada para cumprir os compromissos de campanha. Acho isso negativo.
Folha – O senhor vai deixar o PFL? O PSC está lhe cortejando. A saída de Alvaro e Osmar Dias também abre caminho no PSDB...
Cassio – Por enquanto, ninguém falou comigo. Não recebi nenhum convite da presidência do PSDB.
Folha – Quais serão as chances do PFL no Paraná em 2002, com o desgaste de Lerner?
Cassio – Da forma como o PT está cada vez mais light, cor-de-rosa, está virando neo-liberal. Já aceita a CPMF, já aceita manter os investimentos externos. Acho até que estão se transformando num PFL enrustido. Já não é mais aquele PT lutador, trabalhista. O discurso está nivelado. Esqueça esse negócio de esquerda e direita. O PT hoje está virando um clone do Fernando Collor, quando investe maciçamente no combate à corrupção. Primar pela ética e a honestidade é obrigação do administrador público, e não monopólio de um partido. É isso que tem que tirar da cabeça do PT.
Folha – Se, em termos ideológicos, os partidos estão se assemelhando, o que o eleitor levará em conta na próxima eleição?
Cassio – Vai considerar aquele partido que conseguir vislumbrar um cenário de esperança, oportunidade e desenvolvimento. A população hoje está absolutamente cansada e desiludida.
Folha – O senhor é a favor da privatização da Copel?
Cassio – Na última concorrência da Aneel, quem ganhou foram grandes empresas que querem se tornar auto-suficientes na geração de energia. Quando elas chegaram à auto-suficiência, não precisarão mais comprar. O mercado vai se tornar cada vez mais competitivo. Se a Copel continuar engessada, vai começar a perder competividade. Acho que o governo deveria manter a transmissão. O modelo argentino foi baseado nisso: privatizou a geração e a distribuição, mas manteve a transmissão. Hoje o ponto crítico do sistema energético do Brasil é a transmissão, que faz com que o excedente do Sul não possa ser mandado para o Sudeste. Essa é uma questão estratégica, que deve ser mantida.
Folha– O senhor acha que o governo pode voltar atrás em sua decisão de vender todos os setores da estatal?
Cassio – No caso da Copel, a modelagem (definição de como a empresa deve ser vendida) vai definir o que tem que vender e o que tem que manter. A discussão terá que se feita quando a modelagem ficar pronta. Não se pode levar essa questão para o lado emocional. Tem que levar para o lado mercadológico. Hoje a Copel é uma das melhores empresas de energia do País porque não tem competição. Acho que o governo deveria ter explicado melhor essa questão da futura concorrência para a população.
Folha – No início do seu segundo mandato, o senhor comprou uma briga grande com o Ministério Público...
Cassio – Com o Ministério Público, não. Com alguns procuradores. O Ministério Público está exercendo sua função. O que não aceito é pré-julgamento de determinados procuradores, que declararam, para várias pessoas, que o próximo alvo seria o Cassio Taniguchi. Não importa onde e como. Eles querem me pegar de qualquer maneira. Não sei por quê. Não os conheço, não fiz nenhum mal a eles. Mas eles me colocaram como um alvo. O que não admito é a perseguição. Isso é pior que dedurismo na ditadura militar.
Folha – Qual seria o objetivo dessa suposta perseguição que o senhor aponta?
Cassio – Eu não sei. Imagino que possa ser uma represália pelo fato de ter ganho as eleições.
Folha – Ao atacar o Ministério Público, o senhor não está assumindo a postura do político que não admite a fiscalização?
Cassio – Pelo contrário. Sempre aceitei todo o tipo de alerta que o Ministério Público tenha feito. Fomos investigar a fundo. Existem várias esferas de fiscalização: a Câmara de Vereadores, o Tribunal de Contas e o Ministério Público. Também criei uma auditoria interna especificamente para isso. Temos quatro níveis de fiscalização. Quero que haja fiscalização. Sou o maior interessado em saber como as coisas (na prefeitura) estão se comportando. Quero prestar um bom serviço.

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