De um lado a prefeitura criando o camelódromo central, em Londrina, para tirar os camelôs das ruas e praças; de outro, o abuso dos lojistas desse ponto vendendo mercadorias contrabandeadas e pirateadas. Se os alvarás concedem licença para a atividade, não permitem vender mercadorias irregularmente. O fato já vinha se aproximando do ponto de fervura, e ontem aconteceu. Duzentos fiscais da Receita, cem policiais federais, cem policiais militares e 50 ajudantes realizaram uma operação-surpresa ontem de manhã e apreenderam todo o estoque dos 316 boxes, ao tempo em que expediram mais de 300 ordens de prisão. Na continuidade, os camelôs reagiram, e as lojas de comércio regular do centro tiveram de fechar as portas, como precaução. Em certo momento havia duas mil pessoas no tumulto.
Se o problema do desemprego é grave, não só em Londrina mas em todo o Brasil, o ganha-pão dos camelôs não pode converter-se em afronta à lei. Eles têm de organizar-se e adquirir as mercadorias legalmente e não operar com a pirataria, especialmente de produtos que tenham a ver com a saúde das pessoas, caso dos óculos. Se, depois do primeiro camelódromo legalizado, outros mais surgiram, e os que protestam dizem que Londrina transformou-se na ''capital dos camelódromos'', não se pode permitir a institucionalização do comércio irregular. Porque isto significará a desordem e a desobediência civil. Os comerciantes tradicionais têm razão de protestar, porque pagam seus impostos regularmente e operam dentro da legalidade. Há denúncia de estes também terem, entre suas mercadorias, lotes de origem ilegal. Se isto for verdadeiro, as autoridades devem fazer a investigação cabível.
Se os camelôs defendem o seu negócio e afirmam que, em caso de obstrução da atividade, duas mil pessoas ficarão sem renda, devem preservar a concessão que lhes é outorgada e agir dentro da lei. Fora disso será esperar novas investidas da Receita e da Polícia Federal, porque vender mercadoria importada sem nota tipifica contrabando. Se operar na legalidade significa, por um lado, engordar o famélico Tesouro Nacional em face dos elevados impostos e encargos fiscais com os empregados, a luta contra isso deve ser travada em outras frentes, por via das representações parlamentares e da mobilização popular. As minilojas desse padrão e o comércio ambulante nunca serão extintas, nem em Londrina e nem em cidade alguma do mundo, mas é preciso operar em harmonia com a lei. Porque insistir no comércio ilegal só trará transtornos e não haverá paz. Será necessária essa tomada de consciência.

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