Se alguma vez você já folheou um dicionário de citações e se deteve no infalível verbete ‘‘casamento’’, talvez tenha notado que a grande maioria das opiniões que encontrou sobre este assunto (ou mesmo a totalidade delas) é masculina e quase sempre depreciativa. Aqui vão algumas, colhidas num desses dicionários (o de Folco Masucci, denominado ‘‘Dicionário de Pensamentos’’, cuja primeira edição foi lançada em 1944, com o prestigioso prefácio de Afonso de E. Taunay):
‘‘Atrás da poesia do amor vem a prosa do casamento’’ (Camilo Castelo Branco). ‘‘O casamento é o amor feito funcionário’’ (Afrânio Peixoto), ‘‘Todos têm o dever de se casar: não é lícito subtrair-se egoisticamente a uma calamidade geral’’ (Moses Gottlieb Saphir), ‘‘Como! Ele casado! E pensar que eu o deixei em tão boa saúde’’ (Antífanes), ‘‘Oh, quantos tormentos no pequeno círculo de um anel nupcial (Colley Cibber).
Porém, se considerarmos o papel de subserviência que a mulher vem desempenhando desde a pré-história do Homem (papel de subalternidade que se verifica já no fato de o gênero masculino servir para designar a espécie zoológica, ao contrário do que acontece, por exemplo, entre as cobras e as antas), não é de estranhar que as mulheres tenham sido esquecidas ou raramente compareçam nesse tipo de léxico. A elas não cabia emitir opiniões sobre o matrimônio, e sim suportá-lo, numa relação de vassalagem em que lhes competiam funções como a de dar à luz novos exemplares da raça humana (de preferência machos), preparar as refeições e zelar pela casa de seu senhor. Aos homens, por sua vez, cabia o privilégio de se sentirem descontentes com o casamento, desdenhá-lo e serem infiéis, sem por isso merecerem reprovação.
Ao fazer as considerações acima, tive em mente relacioná-las com fatos contemporâneos inegáveis, quais sejam o decréscimo do número de casamentos e o extraordinário aumento do número de divórcios, para tanto utilizando os dados fornecidos pela reportagem ‘‘Divórcio: 20 anos depois, tão comum quanto o casamento’’, publicada nesta ‘‘Folha’’ no dia 8 de junho último.
Recordemos alguns desses dados, referentes ao Paraná e ao Brasil: no país, de 1978 (ou seja, logo após a lei do divórcio - de autoria do senador Nelson Carneiro - ter sido sancionada, em dezembro de 1977) até 1996, o número de casamentos diminuiu 17,66% e o número de divórcios aumentou 427,07% (percentuais que devem ser cotejados com o crescimento populacional verificado entre 1980 e 1996, que foi da ordem de 30,86%); no Paraná, também entre 78 e 96, a quantidade de casamentos caiu 20,22% e a de divórcios subiu 456,88% (sendo que nosso crescimento populacional entre 80 e 96 foi de apenas 11,77%).
A que devemos atribuir os números transcritos, que nos levem à constatação de mão dupla de que os brasileiros estão casando menos e se divorciando cada vez mais?
Buscando uma explicação que, bem longe de esgotar o assunto, se baseie no que nos é dado ver no dia-a-dia, de preferência às extensas considerações teóricas e multidisciplinares sobre os percentuais acima, creio que uma tal explicação deva passar necessariamente pelo redimensionamento do papel da mulher na sociedade brasileira, conforme esboçado nas últimas décadas. (Digo esboçado porque esse redimensionamento é bem mais superficial do que nós, mulheres, gostaríamos de admitir. Não obstante seja o caso de reconhecer - especialmente nos grandes centros urbanos e em fatias privilegiadas da população - a conquista de espaços antes interditados às mulheres, será forçoso admitir também - sem qualquer ranço feminista - que ainda somos alvo de preconceitos masculinos que, embora mais ou menos dissimulados, são de origem arcaica).
Seja como for, as conquistas obtidas - em grande parte decorrentes do crescimento da mão-de-obra feminina no mercado de trabalho - impuseram, primeiramente, uma mudança na maneira como a mulher vê a si mesma. Mudança que a mídia tem refletido e devolve potencializada à sociedade, enfatizando a mulher independente, atuante, que sabe o que quer para si e está em condições de competir em pé de igualdade com o homem na conquista e consolidação do seu espaço, da sua inserção social definitiva.
É um modelo atraente, esse da mulher de opiniões próprias, não mais subserviente ao homem - atraente às mulheres, é claro, ainda que, na prática, a maioria delas esteja aquém da viabilização integral desse modelo. Mas o caminho, a direção foram apontados, e isso faz toda a diferença. Na medida em que os grilhões da dependência financeira vão sendo quebrados, ou seja, em que a mulher se descobre apta a sobreviver sem a figura protetora e provedora do homem; na medida em que a mulher se sente mais dona do seu corpo e do seu destino, também a manutenção do casamento em bases desvantajosas para ela (não só para ela, convém frisar) deixa de ser imperativa.
Por ocasião da celebração do matrimônio, quantos noivos ainda se verão presos à sentença ‘‘até que a morte os separe’’? Certamente, bem menos do que outrora, conforme os números levantados pela reportagem desta ‘‘Folha’’ dão prova muito eloquente. É óbvio que não pretendo atribuir esse estado de coisas somente a um processo de conscientização da mulher (o que, sobre ser restritivo, seria absurdo); no entanto, não se poderá negar que nele tem seu peso o fato de um número cada vez maior de mulheres buscar a sua realização em outros papéis que não os de simples parideira e empregada doméstica (cozinheira, bordadeira, faxineira etc), não remunerada.
Na verdade, o pano de fundo para o decréscimo do número de casamentos e o aumento do número de divórcios é bem mais complexo e revela, antes de tudo, uma generalizada crise de valores de ordem existencial, social e religiosa. O que deve ser colocado em questão, portanto, são os fundamentos do casamento enquanto instituição; uma vez que se esses fundamentos se debilitam, também a instituição é debilitada.
Que cada um reflita sobre as coisas que coloca como alicerces do casamento e perceba que vários desses alicerces não têm suficiente lastro de realidade, a começar por aquele que é considerado o principal deles, o amor, quando este é objeto de uma idealização. Cada vez menos as pessoas estão dispostas a acreditar em modelos como Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa ou - mais nacional e irrealista - Ceci e Peri. E é bom que seja assim, pois a convivência a dois, com todos os riscos que envolve e entre os quais a rotina não é menor deles, está longe de identificar-se com esses modelos, que, por excepcionais, foram consagrados pela literatura.
É, pois, o caso de repensar a instituição matrimônio à luz de uma mudança bem mais abrangente, que é, em última instância, a dos paradigmas que determinam nossa visão de mundo. Este o vemos hoje sob os signos da relativização, da probabilidade e do efêmero; e, se assim é com o mundo, nada há de estranhável em que as aparentemente sólidas e domesticadas certezas que outrora fundamentavam o casamento tenham se tornado, também elas, relativistas, probabilísticas e efêmeras.
Não diria com isso que o casamento esteja em vias de tornar-se uma instituição falida (o que na opinião de muita gente já o é), e sim que nisso tudo se encontra ao menos algo que deve ser visto positivamente: o fato de que as cláusulas, explícitas ou implícitas, que o tem regido fizeram-no mais revogável do que nunca, pois, por assim dizer, estão sendo melhormente lidas e discutidas.

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