Estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF) sobre a família do Brasil colônia mostra a origem de características da sociedade brasileira, desmente histórias de famílias nobres e ainda mostra como o casamento foi usado como instrumento para que estrangeiros e criminosos permanecessem no País.
O levantamento, de 16 mil processos de casamentos ocorridos entre 1600 e 1815 no Rio, indica que a união com papel passado era privilégio dos brancos (70%). Mas, como a sociedade era composta predominantemente de mestiços e negros, a conclusão dos pesquisadores é que a maioria era ''amasiada'', como se dizia na época. Até mesmo nos 30% restantes de casamentos de mestiços e negros, a grande maioria ocorria entre pessoas da mesma raça, negros com negros, mulatos com mulatos etc. ''Nós vemos aí que o preconceito já estava presente. Os brancos queriam casar com outros brancos. Quando tinham uma relação com uma negra, não oficializavam. E mesmo os negros preferiam pessoas da mesma cor'', relata Nireu Cavalcanti, pesquisador da UFF que, há três anos, estuda os processos de casamento arquivados na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro.
A outra revelação é que, em uma amostra escolhida de 100 processos, em apenas dois os cônjuges eram escravos. Formalizar a união não tinha muito valor ou utilidade para quem vivia limitado à casa do senhor.
Se hoje o Censo faz o levantamento de raças no País com base na resposta do entrevistado, dizendo se é branco, pardo ou preto, no Rio colonial era o padre que fazia a classificação olhando para os cônjuges (ou bebês na certidão de nascimento). A nomenclatura também era diferente: entre branco e negro, existiam o mulato, o pardo e o cabra (sendo o mulato o mais claro e o cabra, o mais próximo do negro). Havia ainda as diferenciações para origem: preto era o escravo nascido na África e crioulo, o escravo brasileiro.
O estudo também esclarece algumas biografias e histórias de famílias nobres do Rio. Cavalcanti conta que, pelo registro de casamento do pintor escravo Manoel da Cunha, ele conseguiu traçar a verdadeira história de um dos maiores artistas da época.
Os livros sobre o pintor dizem que Cunha foi alforriado pelo bondoso senhor. Mas o documento do seu casamento diz que a história não foi bem assim: o pintor comprou sua libertação e ainda pagou mais do que deveria por já ser famoso.
A pesquisa mostra ainda que o casamento foi, no Brasil colônia, um subterfúgio para o estrangeiro ameaçado de ser expulso do Brasil. Muitos processos indicam claramente casamentos arranjados ou apressados para garantir a permanência no País. Um dos casos mais curiosos foi o de John Cherem, que mudou de nome e acabou virando João Xerem.
Casou com Barbara Souto Maior em 1688 às pressas e comprou um sítio nos arredores do Rio. Hoje, Xerem é um distrito de Duque de Caxias (município do Rio), onde Zeca Pacodinho tem um sítio e uma escola para crianças.
Cavalcanti também encontrou um caso em que o processo revela o passado secreto do cônjuge. O governador do Rio Grande do Sul, José Marcelino de Figueiredo, teve que revelar seu verdadeiro nome (Manoel Gomes Sepúlveda) quando se casou com Joana Correia de Sá, em 1781. Com aprovação do rei de Portugal, o capitão português Manoel tinha mudado de nome e fugido para o Brasil para escapar da condenação por matar um oficial inglês.

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