''Se você não tiver condições financeiras, energia e tempo, estará arrumando uma encrenca''. A afirmação é do dentista Carlos Magno Goshi, de Londrina, quando questionado sobre ter filhos. Ele, que tem 41 anos, e a esposa, Rosemary Cianca, 40, fazem parte de uma ''tribo'' que cresce cada vez mais no Brasil a dos casais sem filhos.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram o crescimento do número de casais sem filhos no País. Em 1992, eles representavam 12,9% das famílias entrevistadas. Em 2002, o índice subiu para 14,1%. Isso significa mais de sete milhões de uniões sem prole.
''Por questões econômicas, a decisão de ter filhos está mais difícil de ser tomada, e não tão óbvia como antigamente'', observa Ana Lúcia Sabóia, chefe da Divisão de Indicadores Sociais do IBGE. ''Junte-se a isso a redução da taxa de fecundidade, ou seja, as mulheres têm hoje cada vez menos filhos.''
Sem nunca ter sentido o ''tal instinto maternal'', Rosemary é enfática sobre o assunto: ''não faço a mínima questão''. Ela afirma acreditar que algumas mulheres ''nasceram para ser mães''. Não ela: ''nem de boneca eu brincava''. Uma das vantagens que ela vê no fato de não ter filhos é o crescimento profissional: ''Na minha profissão (protética), onde a maioria é homem, acredito que a dedicação em tempo integral ajudou em grande parte''. ''E eu não teria feito pós-graduação em São Paulo, e teria que pensar como terminar o doutorado'', pondera Goshi.
Mas, casados há 10 anos, eles reconhecem que não é fácil fugir de uma convenção social quase que unânime: ''Quando você é nova, as pessoas perguntam porque não tem namorado. Quando tem, questionam sobre o casamento. E quando você casa, cobram os filhos'', exemplifica Rose, completando: ''nunca fui uma pessoa de idealizar filhos, nunca tive essa vontade, e não vou fazer uma coisa que é a sociedade que quer''.
Casados há 20 anos, Sílvia e Márcio Niero são outro exemplo de casal que escolheu não ter filhos e hoje comemoram a liberdade que tem. Viagens, cinema, shows e baladas fazem parte do cotidiano do casal, e o melhor sem preocupação com horário para voltar para casa. ''A gente gosta muito de viajar, sair à noite, vai para a balada mesmo. Tenho uma amiga que adora sair para dançar, mas ela se queixa que a babá só fica até às 19h30'', conta Sílvia.
Quando completou 32 anos (hoje Sílvia tem 43), seu médico a ''intimou'': ''Ele falou: 'e aí, a hora é agora', mas não foi. Na verdade, não foi programado, foi com o passar do tempo. Quando a gente casou, meu marido falava: 'No ano que vem você engravida', e não aconteceu''. Para o casal, a pressão da família sempre foi grande: ''Minha mãe sempre perguntava: 'Mas vocês não vão ter mesmo?'. Agora desistiu. E minha sogra sempre cobrou um netinho'', conta Sílvia.
Uma das perguntas que os amigos fazem aos casais que não tem filhos é sobre o futuro. ''Os amigos perguntam: 'e aí, quem vai cuidar de você, quando estiver velho?'. Mas não é assim, não é porque você tem filho que ele vai cuidar de você'', opina Goshi. ''Você não cria o filho para si. E depois os filhos crescem e vão cuidar da própria vida. Tenhos casais de amigos que os filhos estão estudando fora e não tem nenhum morando com eles'', observa Sílvia.
A escolha de não ter filhos, afirmam os casais, não significa não gostar de crianças. ''Adoro crianças. Dos outros'', fala Sílvia, rindo, e completa: ''meus três sobrinhos vieram uma vez para cá e ficaram um mês. Eu adoro''. Opinião compartilhada pelo casal Rose e Goshi: ''Acho bonito, curto criança'', fala Rose. ''A gente não tem filhos, mas tem família, amigos, sobrinhos, não vive isolado'', ressalta Goshi.
Sem filhos, o companheirismo é a grande marca desses casais. ''Tudo o que dá vontade de fazer a gente faz, conquista objetivos. Toda a noite a gente sai e se dá bem. Não tem cobrança'', afirma Rose. ''Cada vez que ele viaja, fica difícil dormir. Somos muito companheiros, nos tratamos de 'paixão' até hoje e seremos assim até quando ficarmos velhinhos. Sou feliz assim'', comemora Sílvia. (Com Agência Estado)

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