Casa própria mais distante, aluguel mais presente
Conjunto de fatores, como juros altos e comportamento geracional, tem levado índice recorde de imóveis alugados, sobretudo no Paraná
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de abril de 2026
Conjunto de fatores, como juros altos e comportamento geracional, tem levado índice recorde de imóveis alugados, sobretudo no Paraná
Folha de Londrina 
Os dados mais recentes da PNAD Contínua mostram um movimento consistente: cresce o número de brasileiros, e, de forma mais acentuada, de paranaenses, vivendo em imóveis alugados. Não se trata de uma mudança explicada por um único fator, mas de uma combinação que redesenha, aos poucos, a lógica de acesso à moradia.
O componente mais evidente segue sendo o custo do crédito. Mesmo com ajustes recentes, o nível de juros ainda impõe um freio relevante à compra do imóvel. O financiamento de longo prazo, que historicamente sustentou o avanço da casa própria, volta a ser visto com cautela. O risco de assumir parcelas elevadas por décadas, em um ambiente de incerteza, leva muitas famílias a adiar a decisão, quando não a abandoná-la.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que o aluguel não é apenas uma solução provisória. Para parte da população, especialmente entre os mais jovens, ele se tornou uma escolha racional. A possibilidade de morar mais perto do trabalho ou do estudo, de ajustar o padrão de moradia conforme a renda e de manter mobilidade em um mercado de trabalho dinâmico pesa na decisão. Como observa o economista do IBGE no Paraná, Elias Guilherme Ricardo, essa opção também dialoga com uma mudança geracional, com menor apego à propriedade.
A professora Carina Diane Nakatani Macedo, da UEL, chama atenção para o outro lado dessa equação: o crescimento mais lento da economia e a dificuldade de acúmulo de renda limitam o acesso ao patrimônio. O valor da entrada, em muitos casos, torna-se um obstáculo intransponível. Há um descompasso entre o poder de compra e o preço do metro quadrado que empurra famílias para o aluguel, ainda que essa não fosse a escolha inicial.
Nesse ambiente, o próprio mercado imobiliário se adapta. Como aponta Renato da Rocha Neto, da Litz Estratégia e Marketing, a oferta de imóveis menores e mais voltados ao investimento tende a alimentar o ciclo da locação. O crescimento de públicos temporários, estudantes e profissionais em trânsito, também reforça essa dinâmica.
O resultado é um quadro mais complexo do que a simples substituição de um modelo por outro. O avanço do aluguel reúne sinais distintos: de um lado, indica maior mobilidade e alguma estabilidade de renda; de outro, expõe limites estruturais para a formação de patrimônio em um cenário de crédito caro e renda pressionada.
Entre o custo elevado do financiamento e a conveniência da flexibilidade, a casa própria deixa de ser um caminho natural e passa a ser apenas uma entre várias possibilidades, cada vez mais distante para uma parcela relevante da população. As novas características que redefinem as cidades já estão no radar no setor privado e também devem pautar políticas públicas nos próximos anos.
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