A campanha da Fraternidade deste ano vem oportunamente trazer à tona uma das maiores vergonhas da humanidade, o tráfico de pessoas em pleno século 21. Quando se aprofunda o tema parece estar-se tratando de uma ficção macabra, tamanhos os requintes de crueldade que emolduram essa realidade, alimentada por uma ganância patológica, difícil de entender.
A maioria das pessoas traficadas é pobre ou está em situação de grande vulnerabilidade social e econômica, muitos são migrantes ou estrangeiros. As redes criminosas do tráfico valem-se dessas fragilidades, que facilitam o aliciamento e a exploração, com promessas de uma vida melhor. Uma vez nas mãos dos traficantes, mulheres, homens e crianças são explorados e obrigados a executar atividades degradantes e insalubres sem qualquer possibilidade de recusa. As atividades que compreendem o tráfico humano são diversas, vão desde construção civil, confecções, entretenimento, sexo, agricultura, atividades domesticas, adoção ilegal, remoção de órgãos, entre outras formas de barbárie.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que o tráfico de pessoas no mundo se aproxime de 21 milhões de indivíduos, a maioria vítimas do trabalho forçado ou de exploração sexual. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que o tráfico humano movimente cerca de 32 bilhões de dólares anuais, competindo com o tráfico de drogas e de armas como as atividades criminosas mais rentáveis.
Há cerca de um ano, virou manchete em todo o mundo o caso dos bengaleses mortos pelo desabamento de um prédio onde funcionavam indústrias de confecções que prestavam serviços para grandes multinacionais, leia-se algumas das mais famosas grifes do mundo, que pagavam a essa mão de obra menos de 3% do valor do produto final. Essas mesmas empresas, invariavelmente hasteiam bandeiras de responsabilidade socioambiental, o que demonstra o vale tudo em nome do lucro fácil.
Se essa situação já é aberrante, pior é assistir-se aos discursos que tentam justificar essas condutas como promotoras do desenvolvimento no terceiro mundo, apoiadas na máxima "é melhor ganhar pouco do que não ganharem nada". Essa atitude desloca-se do plano do dever e do que é justo, decente e ético, para se refugiar num discurso raso e hipócrita, do tipo: "é ruim, mas podia ser pior", nessa ordem de ideias, sempre se encontrará alguém mais desesperado em algum país esquecido do mundo, que se dispõe a trabalhar por menos, e não demorará muito a termos a escravidão novamente legalizada.
É certo que esses casos extremos são geralmente rechaçados pela maioria da sociedade, mas parte desta mesma sociedade demonstra seu relativismo ético quando se depara com situações que a afetam diretamente. Não se pode esquecer que a lei das domésticas votada recentemente no Brasil, produziu um ruidoso debate questionando-se a pertinência e necessidade da mesma, em que discursos efusivos sinalizavam tratar-se de direitos exagerados e que iriam resultar em demissões em massa. É bom lembrar que os direitos em pauta, não eram mais nem menos do que os demais trabalhadores já possuem há décadas. A resposta de parte da sociedade a essa questão, lembra os discursos do final do século 19, em que se apontava a abolição da escravidão como uma irresponsabilidade, pois levaria o Brasil a um colapso econômico. São comportamentos desse tipo que demonstram o quanto temos que evoluir como sociedade, para superar a cultura da "casa grande e senzala" e passarmos a lutar por toda a forma de exploração, opressão e indignidade cometida contra qualquer membro da comunidade humana, sob o risco de retrocedermos como civilização e voltarmos ao estado de natureza, em que o que vale é vontade do mais forte.

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