As mortes e o medo gerado na Europa pelo atentado que tirou a vida de jornalistas e desenhistas do jornal Charlie Hebdo não foram o único saldo da violência protagonizada na França por terroristas islâmicos, no último dia 7. O ataque em Paris reacendeu também uma discussão mundial sobre os limites da liberdade de expressão e do uso do humor, matéria-prima dos profissionais da publicação envolvida.

Presidente da Associação Brasileira de Cartunistas (ABC), o jornalista e cartunista José Alfredo Lovreto, o Jal, recorda que no primeiro caso de ameaça por publicação de uma charge do profeta Maomé, em 2005, no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, houve uma onda de manifestos islâmicos, mas pouca repercussão na mídia sobre o assunto. Agora, a categoria praticamente "invadiu" redações impressas e televisivas para falar sobre o caso.

"O bom é essa discussão que está acontecendo. A população deve entender o que é charge, cartum, como é o trabalho. A charge é o termômetro do que a população está pensando", disse o profissional. Desde 1973 na área, ele coleciona premiações como um título entre os 15 melhores cartunistas do mundo, concedido pelo jornal japonês Asahi Shimbun, e o Vladimir Herzog de Direitos Humanos, obtido pelo trabalho com charges nas Diretas Já.

Em entrevista à FOLHA, Jal também comentou sobre a dificuldade em estabelecer um diálogo com fundamentalistas e a necessidade de mostrar aos terroristas que a violência não é o caminho para modificar o discurso de comunicadores. "Eles fizeram um jornal de 50 mil exemplares se transformar num jornal de 5 milhões de exemplares. Foi completamente desastroso", afirmou. Ao mesmo tempo, o cartunista defendeu que um desenho, ainda que traga a imagem de Maomé, é muito menos ofensivo que a divulgação de um vídeo com pessoas sendo decapitadas mundo afora. "Não há comparação entre fazer um desenho e matar uma pessoa. Quem mata perde a razão", definiu.

Histórias sobre charges polêmicas publicadas no Brasil e a reação do papa Francisco ao receber uma compilação de caricaturas dele mesmo também não passaram em branco durante a entrevista. Confira os principais trechos.

Na sua opinião, existe limite para a liberdade de expressão e para se fazer humor?
Quando você usa Maomé numa charge para atacar fundamentalistas ou pessoas irracionais que usam o Islã, a religião para fazer atos violentos, no fundo você atinge inclusive os muçulmanos que são contra a violência. Não é producente. Aqui no Brasil, em 1962, o cartunista Otávio trabalhava no jornal Última Hora e o editor era o Samuel Weiner. Tinha um jogo numa semifinal de Campeonato Paulista e o time do Santos foi até Aparecida pedir força, fazer promessa. Ele aproveitou para fazer uma charge com um representante do Santos, do Corinthians e a santa com a cara do Pelé. Católicos foram na frente do jornal, revoltados, viraram carro, fizeram miséria. O jornal teve que fechar as portas para não ser depredado. O Otávio foi excomungado, o Weiner era judeu mas também foi excomungado. Colocar aquela imagem de Nossa Senhora provocou uma reação que não era nem o alvo deles. Então quando você usa Maomé está fazendo isso também. Tem que tomar um pouco mais de cuidado como cartunista para atingir o que você realmente quer atingir. Mas, se o Charlie Hebdo, depois do atentado, não publicasse um desenho do Maomé, isso mostraria para eles (terroristas) que esse é o caminho para calar as pessoas. Se não publicam como antes, esses caras malucos, irracionais, vão falar: "Vamos matar mais gente que fala mal de nós". Eles tinham que fazer uma capa com Maomé e a fizeram atenuando. Se mostramos que estamos recuando, pode surgir isso em qualquer redação.

Seria possível ter hoje no Brasil uma capa semelhante à do Charlie Hebdo ou este é um tipo de humor que não faz parte da nossa cultura?
Tem acontecido alguns casos não com cartum, mas com stand up comedies, que eles exageram bastante, na via judicial. Tem funcionado de certa forma. Quem se sente lesado vai pela via judicial e por perdas e danos pode conseguir fazer o humorista se recompor. Acho que tem certos limites de bom gosto. Você fazer algo sem analisar tudo isso, sem saber onde realmente quer chegar, será irresponsável. Sempre existe uma fórmula com criatividade para enfrentar as coisas. Por exemplo, o Henfil fazia quadrinhos, usava escatologia, uma série de coisas de violência, com dois representantes da religião católica. Houve algum problema? Não. Henfil era superinteligente, sabia como usar o humor e a Igreja sabia que ele usava aquilo para atacar na verdade a ditadura.

O papa afirmou recentemente que a liberdade de expressão não dá o direito a insultar religiões. Como o senhor avalia isso?
Ano passado, fiz uma exposição de cartuns do papa ("O Papa Sorri") e queria a aprovação dele. Fiz uma encadernação com as caricaturas e o Dom Odilo (Scherer) a levou para Roma. Tinha uma missa que ele ia rezar junto com o papa na casa Santa Marta, que é onde o papa mora. Tenho as fotos dele entregando o livro. Quando o papa começou a folhear, tem as fotos dele rindo, aquela risada de até se colocar para trás. A exposição aconteceu depois no Museu de Arte Sacra. Ele (papa) só fala para não ter exageros. O humor é para arrefecer a violência, funciona como uma válvula de escape para você não ficar violento. Faz as pessoas se sentirem um pouquinho mais bem-vindas a um diálogo. Quando acontece um jogo de futebol e sai a charge do time que ganhou, todo mundo manda para os outros. Isso arrefece a violência, diferente daquele pessoal que usa o time para matar o outro. Hoje em dia se mata em nome de time e em nome de qualquer coisa. Essa violência tem que ser combatida e o chargista é o primeiro a combater isso. Somos uma espécie de termômetro do que a população pensa. Se alguém quiser fazer uma retrospectiva histórica do mundo e for pela charge, vai ver como a população estava pensando naquele momento. Hoje, a história da humanidade está toda globalizada. O Islã é uma religião que era muito fechada e que, com a globalização, está sofrendo dos mesmos problemas que outras religiões, com o pessoal que não tolera as regras de cada religião.

O senhor acredita que esse acontecimento pode criar uma autocensura entre os cartunistas?
Autocensura sempre existiu, desde a época da ditadura. O Charlie Hedbo é um jornal que surgiu junto com o Pasquim aqui no Brasil. O Pasquim era uma espécie de CH, tinha uma dinâmica muito forte contra a ditadura. Teve uma revolução através de um jornal que usava escatologia, sexo, tudo o que era possível para passar as mensagens para as pessoas, nas entrelinhas, para combater a ditadura. Os militares não podiam matar esses desenhistas. O que fizeram? Prenderam por dois meses esses desenhistas, o Jaguar, o Fortuna, porque o jornal era semanal. Mas o Millôr, o Henfil e outros desenhistas continuaram o jornal. A autocensura pode até existir, mas você tem fórmulas, dentro do humor, para fazer a pessoa (leitor) chegar a uma conclusão. O humor serve como um beliscão no cérebro, faz o neurônio se mexer ali. Na nossa história, o Pasquim é fortíssimo, fez a cabeça de várias gerações, inclusive da minha. Cheguei a trabalhar no Pasquim 21, com o Ziraldo e tudo mais. E o espírito era esse. Não chegava a mexer com religiões, porque o Brasil tem uma mescla de religiões. Se você falar de qualquer religião, todas têm segmentos aqui no Brasil. É um caldeirão de religiões. Mexer com religião não é um bom negócio. Você pode até criticar algumas religiões que são mais comerciais, mas se você chegar e mexer com um santo, estará atingindo outras coisas que não são o objetivo da sua charge.

Qual deve ser a consequência para o trabalho dos desenhistas a partir desse ataque?
Primeiro a população deve entender o que é charge, o que é cartum, qual é esse trabalho. Nos últimos anos, os jornais têm deixado de publicar charge, essa parte de ilustração por economia, porque têm menos páginas e tudo mais. Mas, no fundo, é um tiro no pé. A charge existe justamente para que o leitor, depois que viu na internet, no rádio e na televisão, compre um jornal para ver algo diferenciado. O filtro do chargista funciona como uma válvula para que o leitor se interesse até pela matéria em texto. Hoje o visual é super importante. Para você ter uma ideia, o Japão é o lugar onde tem mais equipamentos eletrônicos no mundo, bate o Estados Unidos. Ganhei um prêmio num jornal japonês, há uns 20 anos, sabe qual a tiragem do jornal? Asahi Shimbu tem 10 milhões de exemplares por dia. O concorrente tem mais 10 milhões de exemplares por dia. Só os dois primeiros vendem 20 milhões de exemplares por dia. Uma revista de mangá vende semanalmente de 3 a 8 milhões de exemplares por dia num país que tem que exportar papel. É um erro pensar que as pessoas estão deixando de ler. O desenhista, o cartunista são a alma do jornal. É importante que se entenda um pouco mais isso.

Por que esse tipo de trabalho, como o Pasquim, teve a produção reduzida no Brasil? Isso se deve ao fim da ditadura?
Quando se tem algo pelo que trabalhar contra, isso deixa os desenhistas mais criativos. Quando você entra na democracia, isso se dilui. Hoje tem ditadura financeira, dos cartunistas, são vários tiros que você tem que dar. Vai trabalhar muito mais contra o governo em vigência. Tem que fazer as pessoas entenderem e cobrarem as coisas, e a favor dos oprimidos. Aquele pessoal que matou (no) CH matou também desenhistas que criticaram o próprio governo na França, o trabalho em países que ela dominava. Matar fortalece a direita, você acaba com pessoas que podem lutar contra oprimidos e não resolve nada. A minha preocupação é que essas notícias... Acabaram de morrer mais de 2 mil pessoas na Nigéria e não teve repercussão. Existe um erro da própria mídia em valorizar muito "mais" pessoas importantes. Duas mil pessoas que não são desenhistas, jornalistas, valem menos que quatro jornalistas. É um peso que não pode acontecer. Isso demonstra que realmente quando é um país pobre a mídia não trabalha isso como se trabalha quando se fere alguém nos Estados Unidos ou na Europa. Temos uma responsabilidade como jornalistas. Temos que passar uma ideia para o jovem e até para crianças de que esse mundo está violento mas não é um mundo para se jogar fora. Que eles podem nos ajudar. Por isso, temos que dar uma visão de resultados e não só de desgraças.

O senhor conseguiu chegar a uma conclusão diante dos acontecimentos?
O que é bom é essa discussão que está acontecendo. Quando houve em 2005 e 2006 as primeiras charges, também houve mortes, mais no Irã, por causa das manifestações. Os desenhistas da Dinamarca foram jurados de morte, não aconteceu nada, mas estão jurados de morte ainda. Naquela época, os jornais e a TV não chamaram um cartunista para explicar o que é charge, cartum, para leitores entenderem porque está acontecendo isso por causa de charge. É diferente de agora, que os cartunistas invadiram televisões. É claro que a charge mesmo sem texto pode atingir rapidamente até uma pessoa que não sabe ler. É muito forte, atinge muitas pessoas. Começa com o homem das cavernas, desenhando, e não pode parar. As discussões estão sendo muito melhores.

mockup