Cartas na mesa
André Stumpf
A definição clássica diz que a política é constituída por oportunidade, vontade e possibilidade. A soma desses ingredientes resulta em ação eficaz que marca época e resiste no tempo. Nos últimos meses, dois personagens fizeram interessantes movimentos de marketing político, aproveitando a oportunidade, percebendo a possibilidade e exercendo sua vontade.
Tudo começou com o governador Itamar Franco. Ele descobriu que o rei estava nu. O rei, no caso, é o Plano Real e aquela insistência enlouquecida em manter o câmbio sobrevalorizado. Ele decretou uma moratória de pagamentos no valor de R$ 11 milhões, um nada diante do oceano da dívida brasileira, e provocou um cataclisma mundial. Bolsas desabaram em todo o planeta. O presidente do Banco Central caiu, o real foi desvalorizado.
Os governadores se dividiram em dois blocos. Os que diziam de público que desejavam a renegociação de seus débitos. E os que diziam longe do público que também queriam renegociar seus débitos. O presidente, junto com o ministro Pimenta da Veiga, ouviu a todos e terminou por fazer as concessões possíveis. Os economistas, depois de tantos erros, foram colocados à margem do processo, e os políticos retomaram o controle da situação. O governo chamou um executivo da especulação financeira internacional para controlar o Banco Central. Tudo parece ter se acalmado, inclusive Itamar Franco.
Mas é de toda justiça perceber que, sem a moratória mineira, sem os arroubos do governador Itamar Franco, nada disso teria ocorrido. Ele teve o mérito de mostrar a fragilidade do antigo sistema. E derrubá-lo com palavras e atos. Ao que parece, se coloca como possível candidato à sucessão do presidente Fernando Henrique. Persiste entocado em Minas Gerais e fazendo reuniões no Rio de Janeiro. Ele tem o tempo a seu favor.
O senador Antonio Carlos Magalhães utilizou, de novo, aqueles três ingredientes básicos da ação política e produziu monumental jogada de marketing. Pronunciou seu discurso, na tribuna do Senado, no último dia útil antes da Semana Santa. Colocou o Judiciário, em todo o Brasil, em situação de alerta máximo, reuniu as assinaturas necessárias - com folga, aliás - para constituir a CPI. E nos próximos dias o assunto estará na pauta de todos os jornais, brasileiros e estrangeiros.
É difícil saber como um assunto dessa complexidade vai se desenvolver. Pode haver uma crise institucional, podem ocorrer denúncias graves e pode acontecer de alguma coisa ser, de fato, apurada. O assunto, em ano não eleitoral, tende a preencher o espaço vazio. O governo não tem mais emergências a ser votadas no Congresso. Os parlamentares não simpatizam muito com a reforma política. E os expoentes da área econômica não pretendem avançar na reforma tributária.
Abriu-se uma avenida diante do senador Antonio Carlos Magalhães. Ele terá todo o espaço necessário para levar adiante sua pregação em favor da reforma do Poder Judiciário, enquanto, a um só tempo, consolida seu nome em todo o país como alternativa de poder. Ou seja, constrói a hipótese de sua candidatura à presidência da República. Sucessão é projeto de longo prazo. Ela se faz por etapas. Até agora, somente o PSDB não mostrou sua carta. Duas já estão na mesa.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília.

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