Cartas marcadas - Marccio W. Varella
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de janeiro de 1999
Marccio W. Varella 
A partir do momento em que as rezas se multiplicam o brasileiro deve botar na cabeça que em toda essa história não existe nem bandido e nem mocinho. É apenas um jogo de cartas marcadas com bastante antecedência. Ganham os que têm maior poder; perdem, é claro, os que têm menor poder de influência no mercado.
Entre os perdedores, o Brasil, o eterno caixa-2 do G-7. Basta pesquisar o que resta da nossa história (a maior parte dela enterrada para não despertar desejos contrários aos grandes produtores de capital). O desenvolvimentismo-popular proposto, de maneiras diferentes, por Getúlio, JK e Jango foi aos poucos sendo substituído pela desenvolvimentismo-popularesco dos militares, depois de Sarney, depois de Collor/Itamar e agora com FHC. Neste tipo de proposta, nada de novos investimentos por conta do estado. Pelo contrário, a ordem era destruir o setor estatal construído a duras penas pelo suor e impostos do trabalhador brasileiro, e investir no mercado financeiro, que constrói fortunas e derruba nações com a mesma facilidade e hipocrisia com que os candidatos políticos prometem asfalto nas ruas.
A diferença entre os dois tipos de desenvolvimento, que exigiram muito investimento para transformar o País na 8ª economia do mundo (com o PIB lá em cima) no início da década, é que o primeiro pregava a distribuição equânime da renda para todas as classes sociais; o segundo pregava, prega e faz a distribuição da renda apenas entre as diversas categorias que compõem a nossa elite, isto é, algo em torno de 1% da população. Os outros 99% apenas contribuem para a manutenção do status quo desses 1%.
Todos da administração FHC sabiam que manter o câmbio atrelado ao dólar não iria durar para sempre. Todos sabiam que a coisa iria estourar no segundo semestre do ano passado. Mas, naquela época, desvalorizar o real e fazer o câmbio flutuar seria o mesmo que entregar o governo de bandeja para Lula.
Tudo combinado entre eles - governo federal, FMI, BSI, Banco Mundial, governo dos EUA. Este vai fazer de tudo para não deixar a peteca cair, isto é, não deixar as reservas descerem a mais de US$ 20 bi. O que não era novidade para os donos do poder foi um susto para os governados, enganados pela mídia, pelas mentiras e pelas promessas.
O próximo passo é a dolarização da economia, a exemplo da Argentina. As exportações vão crescer, as taxas de importação deverão cair, juros, inflação e preços ficarão sob controle, na medida exata das bocas famintas das transnacionais e demais interessados no caixa-2. A orientação econômico-financeira virá de cima, não haverá problemas de governabilidade e ainda teremos a possibilidade da quebra da ordem institucional, quem sabe, talvez, a aprovação pelo Congresso, depois de uma série de chantagens de lado a lado, de um terceiro mandato para Sua Excelência.
Democracia, que é bom, nada.
- MARCCIO W. VARELLA é jornalista da Folha em Maringá


