Indústria da multa
Sou londrinense com orgulho, formado em Comunicação pela UEL, 36 anos, quase metade deles com habilitação para dirigir sem nunca ter levado uma multa de trânsito, nem ter causado nenhum tipo de acidente de trânsito. Politicamente correto (graças à educação que recebi dos meus pais) sou uma das raras pessoas que pode dizer que nunca parou com seu carro em local proibido, que nunca jogou lixo para fora do carro, que nunca pararam em fila dupla e que nunca fizeram parte do time dos motoristas famosos pelas ''barbeiragens'' ao volante. Sou humano, com todos os defeitos de fábrica: também fico estressado no trânsito, tenho vontade de pisar no acelerador para poder chegar mais rápido, fazer conversões proibidas quando sei que não há fiscalização etc. Mas não faço! E será que mereço alguma recompensa por isso? Lógico que não! Num país onde ser honesto é motivo para virar celebridade, não estou cumprindo mais do que a minha obrigação como cidadão. E com todo esse meu respeito pela cidade e pelas pessoas levei minha primeira multa no dia 03 de novembro deste ano, quase 9 horas da noite de uma quarta-feira chuvosa, por furar o sinal de um dos pontos mais perigosos de Londrina: a escura esquina da Rua Bahia com Rio Grande do Norte, no centro da cidade, no mesmo lugar onde já sofri 2 abordagens por pessoas bastante suspeitas e um outro amigo, que mora nas redondezas (Rua Niterói) foi assaltado. Para evitar problemas, parei no semáforo da Rua Bahia e, como não havia movimento, furei o sinal. Só depois percebi que, um pouco atrás do meu carro, havia uma viatura da CMTU. Detalhe: com o giroflex desligado! Percebi então que possivelmente eu havia sido multado. O irônico de tudo: a velocidade com que a viatura da CMTU desceu pela Rua Bahia, bem acima da permitida, em total desrespeito às placas espalhadas pela longa rua. Se lá existem mesmo os controladores de velocidade, como diz a sinalização, que verifiquem o que estou dizendo. Meu desabafo fica aqui registrado: sou totalmente a favor das multas e até mesmo acredito que deveria existir mais fiscalização, mas que haja critério e respeito pelo cidadão, porque uma multa num dia de chuva num local perigoso e num horário como aquele em que fui multado reforça bastante os rumores de que existe sim a tão comentada indústria da multa em nossa cidade.
EDUARDO ANTUNES ANDERSON (relações públicas) - Londrina

Favela de Belém
Curitiba, advento de 2004. De porta em porta, Maria procura um lugar pra desembuchar o nenê, que se mexe muito, havia dilatação e já queria escapar. ''Ide procurar outro lugar, aqui não há vagas'', disse a recepcionista da maternidade do Rosário. ''Vão pra outro lugar, aqui não tem leito, não tem obstetra, não tem enfermeira ou parteira, só tem médico pra quem pode pagar'', disse porteiro bigodudo do HC. Na Santa Casa não há misericórdia, disse o provedor, nem na Maternidade de Fátima haverá mais lugar, adiantou a freira-chefe, nem no Evangélico lotado, reiterou o pastor. Nem no Posto de Saúde do Ouvidor deixaram Maria com dor de parto entrar. ''Aqui não é presépio'', afirmou um carrancudo servidor, que nem injeção na bunda sabe aplicar. Já era tarde, muito tarde. A mulher barriguda, com José, o catador de papel, foi procurar lugar fora da área central. Com uma dor de matar, quase parindo, Maria à luz não dava, mal conseguia caminhar. Um Papai Noel que passava pela triagem entupida de presos na Travessa da Lapa foi a salvação do mundo. Ao casal de forasteiros, deu carona até a Vila Pinto em moderna carruagem pra lixo e papel velho puxar, puxada por um só burrinho cansado de camelar. Por milagre, o asinino escapou da tropa encurralada no caminhão-frigorífico de Santa Fé, que leva e judia de cavalos vivos, mortos pela fome de matar. Em meio à favela pobre de barracos podres, do lixo que não é lixo, do rio que não é rio, de Belém que não é Judá, todos dormem, ninguém acorda com o choro, o espernear da dor e o galo cantar. Badalam os sinos, anjos fazem folia pra Deus, a Lua estribilha um hino, as Três Marias coruscam no mais alto do céu. Na Favela de Belém, era noite de Natal
JOSÉ FIORI (jornalista) - Curitiba

Status de ministro
Quer você também não revelar seu domicílio e ser considerado ministro? Pois bem, nosso presidente que sempre zelou pela honra, moralidade e lutou por elas, agora que está no poder e resolveu voltar-se contra elas. A Câmara de Deputados aprovou, o Senado ratificou, o status de ministro ao presidente do Banco Central. Pra que isso? Devido ao foro privilegiado, ou seja, ser julgado direto pelo Supremo Tribunal Federal, um dos juristas mais respeitados do país, o advogado geral da União, Claudio Fontelles, já disse com razão a inconstitucionalidade da questão, pois como a Constituição afirma que um ministro não pode ''mandar'' em outro, sendo assim como o Ministro da Fazenda poderá exigir do suposto ministro do Banco Central medidas de urgência? Sabemos que o motivo dessa balbúrdia se deve apenas ao não oferecimento de sua residência ao ''leão''. Enfim, mais uma vez devido aos jogos políticos o governo aplica mais um golpe na população tão sofrida.
WAGNER RIDÃO BATISTA (estudante de direito) - Londrina

CORREÇÕES
Diferentemente do que foi publicado na matéria intitulada ''Jovem encontra salvação no rap'', na página 2 do Caderno Cidades, o compositor Reinaldo Fernandes da Cruz foi detido por furto simples (artigo 155 do código penal).
Na matéria publicada na edição de ontem sobre a autuação da Secretaria de Meio Ambiente de Curitiba contra a Sanepar, houve um equívoco no valor da multa que foi de R$ 204,00 R$ 51,00 para cada um dos quatro pontos de lançamento irregular de esgoto e não R$ 254,00 como informamos.
Diferentemente do que a chamada de capa indicava ontem, o presidente do Vasco, Eurico Miranda, é quem denunciou o Atlético de tentativa de suborno no Campeonato Brasileiro.

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