Apitaço
A ACIL - Associação Comercial e Industrial de Londrina considera inaceitável o modo como se desenvolveu a manifestação realizada na tarde do último sábado, na área central de Londrina, sob o comando do Sindicato dos Trabalhadores no Comércio e com o apoio de políticos. O protesto, idealizado sob o justificativa de criticar a abertura do comércio aos sábados à tarde, se transformou num ato de coação, violência e selvageria, marcado pela ameaça permanente de quebra-quebra e agressão a profissionais e empresários que nada mais faziam do que trabalhar.
Foi um espetáculo triste e grotesco, que teve como pano de fundo a disputa eleitoral para prefeito e vereadores. O ''apitaço'' foi convocado durante reunião no Sindicato dos Comerciários, na sexta-feira à noite, com a participação da diretoria do sindicato e de candidatos a vereadores e prefeitos.
O que seria um protesto virou arrastão. As lojas do Calçadão e das ruas Sergipe e Benjamin Constant foram pressionadas a baixarem suas portas sob ameaça de serem invadidas ou terem os funcionários e consumidores agredidos. Na Casas Riachuelo, uma porta de vidro foi quebrada pelos manifestantes.
Fica claro que a presença dos políticos na reunião da sexta-feira torna ainda mais distante a possibilidade de um acordo nas negociações em andamento entre os sindicatos dos empregados e patronal do comércio. Representantes do poder Legislativos (entre eles seu presidente) e o chefe do Executivo cumprem um papel oposto que seria o deles num impasse que envolve o segmento da economia de Londrina que mais emprega.
As lojas do Centro fecharam sábado não por terem sido conscientizadas da posição do Sindicato dos Comerciários, mas sim por terem sido coagidas e ameaçadas.
A ACIL condena veementemente a forma agressiva do ''arrastão'' e a presença de políticos na manifestação, bem como o apoio e incentivo do prefeito Nedson Micheleti. A ACIL se manterá no caminho que escolheu para a discussão do tema, que é a Justiça. Sem agressão, sem violência, sem coação.
JOSÉ AUGUSTO RAPCHAM, presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL)
Justiça das cotas
Na formação do Brasil Colônia eles plantaram, colheram, moeram a cana e a transformaram em riqueza adocicada para o império lusitano. Participaram das Entradas e Bandeiras, lutaram na Guerra dos Guararapes, criaram a sua república de quilombolas, lavraram o ouro e o diamante que gerou riqueza no Brasil e no mundo. Formaram pelotões na Guerra do Paraguai. Amamentaram os filhos da elite, semearam o café dos barões, foram traídos pelos revolucionários gaúchos em busca da liberdade. Era Aleijadinho, Machado de Assis, Lima Barreto, era Pelé, Didi, Zumbi, Cruz e Souza. Pixinguinha, Cartola, era a viola e o tamborim na capoeira ou no chorinho. A Negra de Tarsila do Amaral. O Brasil é negro, mas quer esconder e tem vergonha, não mostra na televisão. Dom Pedro II queria embranquecer o Brasil, mas não conseguiu. O povo ficou marrom.
Este é o Brasil Macunaíma, um caldeirão multirracial e a Universidade Estadual de Londrina ao aprovar as cotas para negros e alunos da escola pública, neste histórico 23 de julho de 2004, fez justiça a um povo que mesmo escravizado sempre foi dos primeiros a defender esta nação. Esqueçamos os contrários e seus interesses privados, o que vale agora é transformar esta medida em exemplo para tantas injustiças que ainda acometem nossa população. Tenho orgulho de ser brasileiro, tenho orgulho da reitora Lígia, do Jairo Queiróz, da Mãe Mukumbi, do Zulu Araújo, do Lino, do Bernardo Pellegrini, do Tião, Genivaldo, Idalto, Lucilda, Mazé, Eugênia e todos que participaram deste embate legítimo. Tenho orgulho do Edson Neme Ruiz, que representando setor tradicionalmente conservador, no Conselho Universitário defendeu e votou pela implantação das cotas, mostrando que para um país desenvolver não basta pensar em sua economia. Uma nação é constituída por pessoas. Axé.
ANDRÉ GALVÃO DE FRANÇA (advogado) - Londrina

Feto anencefálico
A propósito do artigo do juiz Márcio Augusto Nascimento (24/7) algumas considerações merecem ser feitas. O aborto de fetos anencefálicos não pode ser tido como assassinato, já que é incontestável para a ciência hoje que tais seres não apresentam qualquer condição de sobrevivência. Entretanto, se amanhã e apenas se amanhã a ciência trouxer alternativa ou tratamento para tais casos a situação será outra e tal modalidade de aborto não mais poderá ser admitida com base em tal fundamento, já que o direito evolui de acordo com o desenvolvimento e as necessidades da sociedade. Ora, não se pode admitir que o direito à vida e à sanidade psicológica dos familiares e, principalmente da mãe, sejam violados por premissas não embasadas nas máximas da experiência e sustentadas apenas em hipóteses. É certo que o direito constitucional da mãe à vida é flagrante, visível, e assim deve ser protegido. Em suma, sem entrar no mérito de cada um dos argumentos expostos pelo articulista, vale lembrar que assassinato ou homicídio também pode ser praticado por culpa, em qualquer de suas modalidades, vale dizer, imprudência, negligência e imperícia. Neste caso, indaga-se: quem seria o culpado pela morte da mãe por complicações em decorrência da gravidez de feto anencefálico ou até mesmo em decorrência de danos à sua integridade psicológica?
THIAGO ANTUNES ZANATTA (advogado) - Londrina

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