CARTAS
Cotas para negros
É preciso deixar de lado a mania que os brasileiros tem de querer resolver problemas complexos com soluções simplistas. O sistema de cotas nas universidades é mais uma dessas soluções que pretendem ser mágicas, mas nunca sairão do plano da demagogia populista. Está provado, através de diversas pesquisas que o que dificulta o ingresso nas faculdades não é só origem racial ou pobreza: são diversos fatores que, alinhados, provocam esse efeito. O sistema de cotas, além de ser discriminatório, não poderá nunca corrigir essa ''falta'' de negros nas formaturas das universidades, porque a saida é muito mais complexa: melhorar o nivel do Ensino Médio público que está sendo oferecido à população. Depois que se criar uma base de igualdade entre os candidatos é que veremos um aumento na quantidade de pessoas de diversas outras raças com acesso à universidade. O sistema de cotas proposto é equivocado, eleitoreiro e populista.
ANDRÉ EDUARDO PULLIN LAZZARINI (veterinário) - Londrina
Autoritarismo
A pesquisa feita e divulgada pela ONU revela que mais da metade dos latinos-americanos entrevistados preferem regimes autoritários ao sistema democrático. Ora, não devemos confundir alhos com bugalhos: no caso do Brasil, por exemplo, apenas começamos a experimentar os ares de democracia a partir dos anos 80, após o término da feroz ditadura militar iniciada com o golpe de 64.
Durante o período democrático, nossos presidentes - inclusive o atual - preferiram adotar o modelo econômico do FMI, alicerçado nas esteiras e diretrizes do Consenso de Washington. Nesse sentido, o sentimento dos entrevistados que dizem escolher o autoritarismo à democracia, está contaminado pela desinformação. Ou seja, não é possível e sendo mesmo inconcebível atribuir à democracia as desgraças que aí estão.
Sob essa ótica se esconde a ignorância do papel destruidor do neoliberalismo imposto ao longo de todos esses anos ao Brasil e países latinos. Portanto, é fácil perceber pela pesquisa que ainda não tivemos a oportunidade de viver uma democracia plena apenas 14% dos entrevistados confiam nos partidos políticos a não ser um encetado regime democrático, que vive atrelado a uma ditadura econômica nefasta e cruel monitorada pelos senhores de Washington. Porém, há de persistir a esperança de revertermos toda essa situação, ainda que nos custe esforço, garra, paciência e leve muitos anos; mesmo porque é preferível errar e corrigir o erro sob a aurora da democracia do que à sombra dos mantos do terror, tirania, opressão e truculência.
ANTÔNIO SERGIO NEVES DE AZEVEDO (engenheiro) - Curitiba
Indústria da multa
Não tenho a menor dúvida, a indústria da multa existe e funciona a todo vapor. Fui multado por uso de celular e nem o aparelho tenho. Recorri, mas não teve jeito o roubo foi consumado, tive que pagar. Daí pra frente não me preocupei mais com as multas, aprendi que certo ou errado, tenho que pagar. O que começou a me preocupar foi o terrível destino deste dinheiro, alguém já se perguntou onde vai parar esta grana toda? Certamente não vai para sincronização dos faróis de Londrina. Substituir a primeira multa por uma cesta básica seria um duro golpe na indústria da multa. Se alguém realmente tem interesse em fazer justiça, chame o Ministério Público, crie uma CPI. Com certeza, as ratazanas que movimentam esta indústria mudarão de negócio, mas desta vez atrás das grades.
ROBERTO TEIXEIRA (empresário) - Londrina
Radicais do verde
Ambientalistas ainda são considerados radicais do verde. Na história ambiental do Brasil temos exemplos do tratamento dado a alguns ambientalistas. Ambientalistas que foram xingados - como José Lutzenberger, um dos ambientalistas brasileiros mais famosos, chegou a ser ministro do meio ambiente, foi chamado de psicótico quando iniciou sua luta no Rio Grande do Sul. Ambientalistas que foram ameaçados - como Augusto Ruschi, naturalista autodidata do Espírito Santo, que teve beija-flores pregados em seu portão. Ambientalistas que foram mortos - como o seringueiro Chico Mendes no Acre, reconhecido no mundo inteiro, sabia o dia em que ia morrer. Será que vale à pena ser um ambientalista?
O que deveria ser um diálogo entre todas as cores da sociedade vira manchete, moda, rótulo ou polêmica, evitando um envolvimento comunitário mais sério. Criamos vocabulários para sustentar o mercado do verde. Mil oportunidades, paliativos, certificações, padrões, campanhas, educação, tudo para salvar o verde! Com essas fantasias muitos querem lucrar e demonstrar como estão se adaptando aos novos tempos, como dão importância à ecologia.
Mudar conceitos exige criatividade, afastar-se da idéia do meio ambiente como um bom negócio ou exercício de salvação da humanidade e se aproximar das visões daqueles ainda não inteiramente formatados pelos padrões da nossa sociedade civilizada como as crianças e os índios.
Podemos resgatar o espírito de muitas coisas. O simples (não necessariamente o infantil ou primitivo), o espiritual, o sagrado, o inexplicável, podem conviver com a ciência e o mundo moderno. Fazer uma combinação possível e torná-la ingrediente para uma convivência pacífica. Convivência onde tanto faz se alguém é, ou não é, ambientalista.
DANIEL STEIDLE (agricultor) - Rolândia





