CARTAS
Maioridade penal
A violência gratuita que assistimos todos os dias - ao vivo e em cores - tem na desigualdade social o seu sistema propulsor. Ou seja, o cidadão menos privilegiado pela vida não nasce mal, torna-se. Influenciado principalmente pelo meio e pelas condições em que vive. Portanto, não adianta muito tentar resolver a questão da violência praticada por menor apenas diminuindo a maioridade penal, sem antes solucionar, ou pelo menos minimizar, a miséria em que sobrevive uma boa parcela da infância e adolescência em nosso País.
Logicamente que episódios como o assassinato do casal de jovens em São Paulo causa repulsa, revolta e sede de fazer justiça com as próprias mãos. Contudo, será que o menor participante do crime teria cometido tal perversidade caso estivesse trabalhando, estudando, ocupando seu tempo com jogos e brincadeiras comuns a qualquer adolescente de 16 anos?
Talvez já seja o momento de pararmos com as demagogias e refletirmos mais sobre o porquê de tanta maldade gratuita atualmente. E pressionarmos verdadeiramente nossos representantes do poder público, para que encontrem soluções que permitam diminuir tamanha exclusão social no Brasil. E, sinceramente, darmos menos importância ao rebaixamento da idade penal.
ANTÔNIO SÉRGIO NEVES DE AZEVEDO (engenheiro) - Curitiba
Bolsa-família
Observemos com descartável isenção o que ainda podemos enxergar de concreto num país periférico como o nosso e sua brilhante política social, (re)batizada de bolsa-família. Enquanto isto, no meio dos grandiloquentes e internacionalizantes debates nacionais, a jovem senhora de um pedreiro meu dará à luz ao seu 5º brasileirinho, numa aritmética de Copa do Mundo, ante meu ar de mais absoluto desconsolo, apnéia, surpresa e estupefação.
À guisa de inesperado mimo natalino, quem sabe agora, com um bolsa-família quase que descendo por uma inexistente chaminé, meu escultor de casas em roupas de servente de pedreiro possa, enfim, educar seus filhos com, digamos assim, dignidade - a mesma que eu e você educamos os nossos ou será que o danadinho vai, fazendo lá suas continhas miúdas, graduar mais alguns números aos nossos registros gerais?
Ouvindo a BBC de Londres, na Universidade FM, Ivan Lessa compartilha-nos sua alegria, ao ter recebido de patrícios um boné mais camiseta da ANCS, a Associação Nacional dos Criadores de Sacis, ruralistas dos mais sérios, já que entre o siso e o riso, aquele parece-me carecer de visão enquanto que boas risadas nos obrigam, ao menos por alguns instantes, fecharmos com força nossos olhos e, em certos desbragamentos, chorarmos, inclusive.
Tendo como opção aderirmos ao bolsa-família ou aos criadores de sacis, sinceramente creio tanto fazer, pois ambos são, respeitadas as devidas noções de bom-senso e escala, absolutamente sérios, senão, patrióticos.
Por uma ou pela outra, procure, ao menos, divertir-se um pouco mais, pois de seriedade em seriedade, na construção improvisada deste desabante edifício social, creio estarmos perdendo o melhor de nossas vidas.
CHRISTIAN STEAGALL-CONDé (arquiteto) - Londrina
Cultura na cabeça
Dias atrás, em uma palestra de Pedro Tierra (poeta, ex-secretário de Cultura do Distrito Federal), ouvi as dificuldades que se impõe na hora da elaboração dos Orçamentos de Cultura: a prioridade dos governos é o saneamento, infra-estrutura, etc. O que sobra, quando sobra, é destinado à área cultural, como se a cultura fosse de somenos importância na formação da cidadania, seguindo uma escala de valores que nos iguala aos primatas (a gente não quer só comida, já dizia o ''pop''). Sugestão do ex-secretário: incluir a cultura no cardápio do Fome Zero.
Um recente mapeamento de condições de acesso aos bens culturais nos municípios brasileiros revelou a miséria que nos assola. Para muitas cidades, resta o truco, a cerveja, o bilhar e o futebol como modo de expressão, entretenimento e identidade cultural.
Digo isto, porque participando do 38º FEMUP, acompanhei diariamente os principais jornais da região e, no entanto, não vi nenhuma manchete de capa, ou matéria principal, destinada a este festival que simboliza a ''resistência'' da cultura partindo do ''interior'' para as urbes, mostra incontestável de vitalidade que surgiu e moldou-se na efervescência dos anos 70.
Com exceção de uma rede de televisão, o silêncio é avassalador. Exemplifico: houve na cidade uma apreensão de drogas e aí sim viu-se manchetes em todos os jornais e chamadas na TV. Resumo: se a nossa imprensa valoriza mais o espectro negro e funesto da influência do tráfico em nossa sociedade do que a beleza de pessoas simples exportando arte para todo o Estado e quiçá para o Brasil, é sinal de que nossos governantes são apenas um reflexo de nossa desgraça. Dizia o erudito, que um país se faz com homens e livros. Na Aldeia Global, devemos ir além: um país também é reflexo de suas manchetes.
MARCOS HENRIQUE GUIMARÃES (escritor) - Curitiba
Eleições OAB
Pugnar democrática, memorável. Parabéns. Congratulo-me com os vitoriosos: 11 de agosto. Auguro-lhes feliz gestão no afã de bem servir à classe e à sociedade. Feliz é a Nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para sua herança. (Bíblia Segrada - SL 33,12).
NATIVIDADE FARIAS DE MORAES (advogada) - Londrina





