Teatro ou hipermercado?

É de estarrecer como certos assuntos são tratados nesta cidade. Por um falso dilema Londrina corre o risco de perder para Maringá uma loja do maior hipermercado do mundo. Não seria de admirar. Muito antes de Londrina, Maringá teve sua megastore de livros. A diferença é que, se for para Maringá, o Wall-Mart muito dificilmente voltará a se interessar por Londrina, pois são cidades muito próximas ligadas por duas pistas. Ou seja, o londrinense que quiser conhecer as vantagens da concorrência terá de se deslocar para lá. Aos poucos, nos acostumaremos com o terceiro lugar. Mas não se trata apenas disso. Outras lojas de nome encerraram suas atividades na cidade (Renner, C&A).
Por que será que as coisas aqui não prosperam? A Folha menciona o receio de supermercadistas locais com a concorrência. Problema deles. Até quando o consumidor local ficará à mercê do interesse provinciano de alguns? Por causa desse espírito, pagamos uma das gasolinas mais caras do País. Olhe que não tenho procuração para defender o hipermercado. Apenas sei que, nos lugares onde se instalou, a concorrência se viu obrigada a oferecer melhores serviços, a preços mais acessíveis. Sem contar os empregos diretos e indiretos que criou. Está na hora de se colocar os pés no chão e tratar do assunto de forma adulta. Há espaço em Londrina para teatros e supermercados.

RUBENS CHIAROTI (advogado licenciado) - Londrina


Indignação

Ao ler a nota no Informe Folha, dias atrás, que relatava a discussão entre o deputado Rafael Greca e Nitis Jacon sobre uma decisão a respeito do Teatro Guaíra fiquei bastante incomodado com a expressão utilizada pelo ''nosso'' deputado referindo-se a Nitis como ''caipira e pé-vermelha''. Não estou aqui para defender a Nitis pois não conheço a fundo o motivo da discussão, mas para falar como caipira pé-vermelho.

Senhor deputado, se ao chamá-la de pé-vermelho e caipira o sr. pretendia ofendê-la e aos londrinenses e norte-paranaenses em geral, saiba que se existe algo do qual somos profundamente orgulhosos este é o nosso ''pé-vermelhismo''. O nosso pé é vermelho como esta terra que tanta riqueza produz e produziu para a nossa região e para o nosso Estado. E quando falo em Estado, sr. deputado, penso em todo o Paraná, e não em uma região que começa em Caiobá e termina em Ponta Grossa.

Daquele Paraná que vai além do término da pista dupla, daquele Paraná que trabalha com espírito de solidariedade e que tanto contribuiu para que a nossa capital administrativa chegasse à grandeza atual. Mas parece que pessoas como o sr. não têm esta visão. E pessoas como o sr. podem destruir este espírito estadual e começar a despertar em nós, pés-vermelhos, um sentido de bairrismo, de injustiça, de orgulho, de indignação e de indagação.

Indagação sobre o destino dos impostos que saem desta região (em 2001 Londrina recebeu 13,6 % do ICMS que arrecadou). O sr. talvez não goste do nosso sotaque mas certamente não desdenha o nosso dinheiro investido na sua cidade, mesmo que este dinheiro traga consigo um pouco de pó vermelho. Temos que diminuir a distância que separa a capital do interior. Estradas não bastam, é preciso mudar uma mentalidade enraizada em pessoas como o sr. e naquelas que administraram recentemente o nosso Estado. Eu não me identifico com o sr.. Se o sr. é um paranaense então eu sou um norte-paranaense, caipira e pé-vermelho.

BRUNO VERONESI (empresário) - Londrina


Pastoral da terra

Na madrugada da última quinta-feira assisti cenas chocantes e deploráveis. Dezenas e centenas de crianças, mulheres e homens deitados ao relento, expostos ao vento frio e ao sereno. Na noite anterior estavam em seus barracos. Há quatro anos estas famílias esperavam, neste local, por reforma agrária, ocupando o latifúndio da fazenda Império, no município de Cândido de Abreu. Algumas delas já despejadas pela quarta vez, esperam há mais de dez anos para serem assentadas.

Constatei mais uma vez, bem de perto, pelo resultado do despejo, pois parecia um pós-bombardeio de guerra, com a bagunça dos pertences das famílias, a distância entre pobre e rico, a miséria e a concentração de renda, entre o bem e o mal. E o pior é que existem os que estão acima do bem e do mal. Dando ordem chamada legítima. Pois, um só, apoderando-se de 800 alqueires de terra, nesta área, diz ter prejuízos de dois milhões de reais, na criação de búfalos, por isso, era preciso enxotar, humilhar, espancar, torturar e espatifar 150 famílias, num total de mais de 800 pessoas que plantavam para ter alimentos.

É preciso que um elemento concentre esta renda e os bois voltem a invadir o lugar das pessoas. Sofrendo só as consequências e não entendendo tal atitude, vi rostos desfigurados e humilhados de crianças, adolescentes e jovens, dizendo que não perderam as esperanças e vão continuar a luta. Uma delas dizia: ''O Estado não pode continuar com governo e polícia, pagos por nós para nos humilhar tão pouco para estar a serviço do poder podre''.

Há poucos dias um elemento chamou a Pastoral da Terra de hipócrita. Só que ele não sabe que ela sai do Cristo Bom Pastor. Entre matar os pobres e chamar Jesus de hipócrita não faz diferença. A terra é de Deus. Por isso, o diabo não pode roubar o que Ele deu aos seus filhos.

ALZIRO DOS SANTOS (padre da Comissão Pastoral da Terra) - Campo Mourão

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