CARTAS
Veias abertas
O governador Roberto Requião mostra indignação, que é também a nossa, com os dados que chegam às suas mãos dando conta do absurdo número de agricultores que morrem em consequência da prática do combate às pragas nas lavouras com o uso de produtos químicos. Sabe-se que o Paraná é o Estado que mais consome agrotóxicos, embora a contrapartida da fama de campeão na produção de grãos do País. A elevada carga de veneno lançada à cada safra no solo, da qual uma parte é aspirada pelos poros e pelas narinas do campesino, outra contamina o aquífero Caiuá via porosidade do Arenito, e ainda as centenas de quilos que aniquilam a vida dos rios indefesos dada a inexistência de muralhas verdes, é responsável pela mortandade daqueles que os políticos aclamam dos altos dos palanques: ''Homens das mãos calejadas e dos rostos sulcados pelo suor do trabalho no dia-a-dia e que são os verdadeiros responsáveis pelo enriquecimento do Brasil!''.
Manjadíssimo apelo mas que até hoje sensibiliza o eternamente esperançoso homem do campo. Indignemo-nos ainda mais pois é por todos sabido que os números mostrados são os oficiais, ou seja, aqueles que foram registrados nos hospitais e nos obituários dos registros civis. Não oficialmente se sabe que muitos morrem devagarinho, cancerosos, dado o efeito acumulativo do veneno no organismo.
Para armazenar mais indignação ainda, levemos em conta os que perdem a visão, a audição, a potência sexual, os que se transformam em portadores de traumas neurológicos, paralisias, derrames, etc., e as mulheres que quando não sofrem esterilização, abortam ou que, ao parirem, arriscam-se a trazer ao mundo, seres disformes, raquíticos, acéfalos até. Loas às campanhas pró-agricultura orgânica e vivas ao crescimento das ações para recolhimento da embalagens de venenos que já serviram até de ''pote'' d'água nos ranchos dos ''Raimundos'' que trabalham para zerar a nossa fome.
PARREIRAS RODRIGUES (funcionário público estadual) - Curitiba
Luxo e miséria
Um mundo comprimido. Assim pode-se resumir a sociedade contemporânea. Aqueles que nascem com melhor poder aquisitivo muitas vezes ficam horrorizados ao saber que seres humanos moram em casebres sem ter o que comer, já outros dão pouca importância, pois o problema não é deles. Usufruir de apartamentos luxuosos pagando altas taxas de condomínio, além de desfrutar do conforto de shopping center, carros do ano, do glamour de festas sofisticadas junto do mais alto escalão. Já o pobre, também sabe que isto existe, através da TV, revistas, jornais ou quando é contratado para servir a elite, sem direito a nenhum petisco, mesmo que for resto.
Alguns estudantes talvez tenham visto a verdade de perto, conforme reportagem publicada pela Folha no último dia 28/9, ao tirarem fotografias das favelas de Curitiba para uma exposição. Pessoas de bem, discriminadas, excluídas, passando fome, vivendo ao relento, sem cultura, assistência médica, odontológica, rede de esgoto, água, luz, asfalto, roupas pra vestir. É generalização? Sim parece esdrúxulo que humanos vivam em lugares como este, porém se houver descrença basta visitar uma favela londrinense, pois a verdade está bem próxima de nossos olhos. Claro que é difícil imaginar que alguém vá conhecer um lugar tão miserável, ainda que não foi descrita a violência, esta que se alastra atingindo toda a cidade, gerada pela falta de perspectiva de vida, principalmente entre os jovens.
Tem quem vive na pobreza e já se acostumou, por isso sempre tem esperança em alguém, seja ele político, traficante, ou um líder comunitário. Estas pessoas vivem de doações de instituições de caridade, igrejas, ONGs e agora do governo (Fome Zero). Este é o legado cultural do Brasil, porém a sociedade devia compreender que a maioria, por mais pobre que seja, quer trabalhar. A má distribuição de renda é favorável para que a miséria aumente, basta imaginar que um trabalhador tenha que sustentar a família durante um mês inteiro com R$ 240,00, é lastimável e realidade.
VALDINEI APARECIDO TEODORO (estudante) - Londrina
Fome x sem-terra
É sem dúvida muito importante dar comida às pessoas que têm fome. O próprio Cristo, já disse: ''Dai de beber a quem tem sede, e de comer a quem tem fome''. No sistema soviético - não estive lá mas ouvi pessoas dizerem - tudo era custeado pelo governo, até o gás de cozinha. Mas também ouvi dizer que, por ser tudo comum e com garantia absoluta, a produção era inferior à dos brasileiros. A construção de uma ponte, por exemplo, feita por soviéticos demorava o dobro do tempo da mesma ponte feita por brasileiros.
Estou lendo críticas sobre o ''Fome Zero'' que ninguém contesta, mas dá outras alternativas, como o aumento do emprego, que melhora a auto-estima do cidadão. Quando ele percebe que pode sustentar a si e sua família com o suor do seu rosto, a sensação de bem-estar é outra. Também estou lendo, que aos sem-terra deve ser dado oportunidade de produzir, mesmo em terras arrendadas, em forma de cooperativas, aproveitando o braço forte e a experiência do camponês, que não tem terras, mas possui a disposição para nela trabalhar.
O êxodo rural, que vem desde as décadas de 50 e 60, levou um grande contingente de pessoas às periferias dos grandes centros. Esse extrato social foi se depurando ao longo dos tempos, e hoje está nitidamente visível, que aqueles que não conseguiram se adaptar, terão que fazer o caminho inverso, pois caso contrário a tendência é aumentar os distúrbios sociais, já existentes, nas grandes cidades. Porém não basta apenas voltar ao campo. É preciso dar assistência técnica. É aí que entra o governo com os seus técnicos, além de uma legislação pertinente para a formação de cooperativas que irão fornecer as ferramentas, máquinas, tratores, etc.
ANTÔNIO PEREIRA (contador) - Londrina





