''Assistimos à queda de um dos últimos tabus da nossa cultura branca ocidental. Agora já podemos ver em cores a legalização de uma prática preconceituosa, que nossa cultura puritana sempre se negou admitir, a iniciação sexual de nossos filhos, homens, por nossas criadas negras''. Peço desculpas por iniciar esta carta de forma tão grosseira, mas acredito que esta é a única maneira de igualar o que estou tentando transmitir com as cenas apresentadas pela Rede Globo, dia 01/10, na novela Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos.
Cenas como esta da novela, em que a empregada negra inicia a vida sexual do jovem branco de classe média, só fazem desmoralizar alguns conceitos, só ajudam a destruir uma sociedade que tanto nos esforçamos para melhorar. A banalização da violência, do sexo, do preconceito, que vemos todos os dias na tela da TV, se choca violentamente contra a educação que nossas crianças precisam. Isto fica bem evidente quando vemos as crianças na escola comentando, elogiando e escolhendo como modelo personagens execráveis da TV.
Como pais, temos a responsabilidade de selecionar aquilo que nossos filhos podem e devem assistir, temos a obrigação de censurar programas que entendemos que não vão contribuir para a formação moral de nossos filhos. Agora, como podemos fazer isso se, em nome de índices de audiência, o emissor torna cada vez mais medíocres os programas, promovendo baixarias, criando mentiras?
Sou obrigado a reconhecer que Manoel Carlos, com alguns personagens, conseguiu contribuir muito para a propagação de conceitos ''humanistas'', como o respeito ao idoso, o desarmamento, o tratamento do câncer e do alcoolismo, mas com pouquíssimos personagens ele maculou o seu trabalho.
Quero parabenizar o Judiciário por se envolver e tirar do ar (mesmo que por apenas um domingo) um programa ruim que fez apologia ao crime organizado, e um outro, que apresentava um estereótipo vulgar das profissionais de enfermagem (um episódio de A Grande Família). Como cidadão, gostaria de pedir aos poderes legislativo e executivo, para que também se envolvam na discussão do que pode ser apresentado pelos meios de comunicação, fazendo destes, instrumentos de formação e integração da sociedade.
JÚLIO CÉSAR COSTA (professor) Londrina

Perda de heróis
Há algo de estranho acontecendo no atletismo. Parece mesmo que a bruxa está solta. Em um momento em que os responsáveis por essa modalidade desportiva estão empenhados em caçar os usuários de substâncias consideradas doping, grande foi a surpresa do ''caso Maurrem''. Ela que é o maior expoente do País para todo o mundo, diga-se, o melhor produto dos últimos anos dado aos grandes feitos em competições internacionais.
Estarrecidos com a acusação e muito mais com a contraprova positiva, os brasileiros afinados a esse esporte dormiram com o coração sangrando. Quando pensaram despertar de um pesadelo foram pegos de sobressalto, logo pela manhã, ao lerem o jornal com outra bomba: ''Zequinha Barbosa, acusado de pedofilia''. Outro herói do atletismo brasileiro capaz de comover uma nação com feitos tão grandiosos, agora se torna o alvo dos mais variados comentários dentro e fora da mídia.
Fatos lamentáveis como esse abalam a auto-estima do brasileiro, uma vez que o esporte é como uma válvula de escape em que o torcedor se sente vitorioso junto com o atleta. Num Brasil já tão marcado por tanta desigualdade, tanta pobreza, tanta desonestidade, parece ficar cada vez mais difícil acreditar que há um caminho bom ou que algo possa dar certo.
CLEUZA MARIA IRINEU (maratonista) - Londrina

Fome zero x sem-terra
É sem dúvida muito importante dar comida às pessoas que têm fome. O próprio Cristo, já disse: ''Dai de beber a quem tem sede, e de comer a quem tem fome''. No sistema soviético, não estive lá mas ouvi pessoas dizerem, era tudo custeado pelo governo, até o gás de cozinha onde fazia-se o alimento. Mas também ouvi dizer que, por ser tudo comum e com garantia absoluta, a produção era inferior a dos brasileiros. A construção de uma ponte, por exemplo, feita por soviéticos demorava o dobro do tempo da mesma ponte feita por brasileiros.
Estou vendo críticas sobre o ''Fome Zero'' que ninguém contesta, mas dá outras alternativas, como o aumento do emprego, que melhora a auto-estima do cidadão. Quando ele percebe que pode sustentar a si e sua família com o suor do seu rosto, a sensação de bem-estar é outra. Também estou lendo, que aos sem-terra deve ser dado oportunidade de produzir, mesmo em terras arrendadas, em forma de cooperativas, aproveitando o braço forte e a experiência do camponês, que não tem terras, mas possui a disposição para nela trabalhar.
O êxodo rural, que vem desde as décadas de 50 e 60, levou um grande contingente de pessoas às periferias dos grandes centros. Esse extrato social foi se depurando ao longo dos tempos, e hoje está nitidamente visível, que aqueles que não conseguiram se adaptar, terão que fazer o caminho inverso, pois, caso contrário, a tendência é aumentar os distúrbios sociais, já existentes nas grandes cidades. Porém, não basta apenas voltar ao campo. É preciso assistência técnica. É aí que entra o governo com os seus técnicos, além de uma legislação pertinente para a formação de cooperativas que irão fornecer as ferramentas, máquinas, tratores, etc.
Para os sem-terra produzirem, basta se organizar em forma de cooperativa e ter o aval do governo, que não precisa gastar com desapropriações, mas sim mediar um contrato entre os detentores das terras e os trabalhadores, que querem produzir.
ANTÔNIO PEREIRA (contador) - Londrina

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