CARTAS
Memória da cidade
Quando cheguei em Londrina, em 1972, conheci uma cidade que se preparava para atividades culturais, colhendo já os frutos das semeaduras pioneiras em música, literatura e teatro. O Festival que deu origem ao Filo passou para a universidade e se desdobrava em teatro, música e artes plásticas. A cidade tinha feições mais identificadas com suas origens. Aos poucos, as casas ao redor das praças, a prefeitura, a Associação Comercial foram cedendo espaço às necessidades imobiliárias. Ainda havia sol a maior parte do dia na Santos e Paranaguá e a JK se chamava Antonina. A catedral, não conheci.
Crescer rápido, como Londrina, deixa sequelas. Cada notícia de que uma construção que fez a história da cidade seria derrubada, era acompanhada de protestos e manifestações. No entanto, muito pouco efetivamente foi feito. (O Hugo Simas continua lá, as estações ferroviária e rodoviária são museus, mas e todos os outros?). A bola da vez é a casa da família Roehrig, amanhã será outra.
É necessário reconhecer que a nossa cultura depende da consciência, e de que nosso patrimônio, nossa memória cultural são as ferramentas de construção desta consciência. Para tanto é urgente discutir, pesquisar e providenciar uma legislação que preserve sem lesar, que incentive educando, que se antecipe, reconhecendo e organizando a memória cultural da cidade. Mas proteger não é necessariamente tampar um bem, pertencente a particulares, com a redoma do tombamento. Há exemplos de procedimentos não lesivos aos proprietários que podem e devem ser considerados.
Vamos buscar soluções para as próximas casas, praças, igrejas, caso contrário a Londrina do futuro será a memória de quem teve o privilégio de ver e viver e o material preservado nos museus; o mais ficará à sombra dos tapumes, de outdoors, de acidentes visuais, que impedem a luz e a formação de raízes.
IARA STROBEL (professora) - Londrina
Faculdade da vida
''O presidente Lula tem o diploma da melhor faculdade do mundo: a vida.'' Será que podemos analisar desta forma? Que a vida é a melhor faculdade do mundo? É uma frase um tanto que entusiasmada, mas não deixa de ser uma frase que, ao pararmos para refletir, encontraremos opiniões diferentes.
Cada homem tem uma vida diferente da de outra pessoa desde a infância. Por isso, não generalizemos. Não podemos comparar a criação de uma pessoa que nasceu em uma família de classe média alta, estudou em boas escolas, teve uma estrutura familiar tranquila, com a criação de uma pessoa que nasceu na favela, vendo o pai chegar bêbado em casa e agredir a mãe, sem ter a oportunidade de ir à escola e não tendo o que comer. Será que a vida, dessas duas pessoas, poderia ser analisadas de igual para igual? É claro que não. As desigualdades sociais contribuem muito para o processo de desenvolvimento de cada indivíduo.
No caso do nosso atual presidente podemos afirmar que a vida para ele foi sem dúvida nenhuma a melhor faculdade do mundo. Mas o Zé Bento, que também se criou em São Bernardo, cidade onde Lula começou a trabalhar, não teve a mesma faculdade de vida. Zé nasceu na periferia, aos 8 anos de idade presenciou seus pais sendo mortos por assassinos, teve que ir morar com um tio que o espancava todos os dias, fugiu de casa, roubou, matou e hoje está preso por assassinato, pegou 38 anos de cana.
Analisando desta forma vemos com clareza que a vida, com certeza, não pode ser considerada a melhor faculdade do mundo. Mas pode vir a ser. Quando nossos governantes começarem a fazer mais pelas famílias mais carentes do nosso país. Dando a elas desde seus primeiros dias de vida, comida, saúde, educação e emprego a seus pais, para que mais tarde possamos falar que a vida de cada cidadão brasileiro é, sim, a melhor faculdade do mundo.
PRIMO PAZOTE NETO (estudante) - Londrina





