CARTAS
Paz social
No momento atual existem perspectivas otimistas para nosso país, fruto de propostas do Presidente eleito e de todos os governos de estados no decorrer do período eleitoral. É de responsabilidade dos governantes, especialmente aos novos eleitos, para que enfrentem, com prioridade, o terrível drama da fome. Tendo em vista que o alimento é direito de todos, é necessário que haja união de Norte a Sul para que este alimento chegue a todas as mesas. Diante das desigualdades econômicas e sociais que afligem nosso povo, não se pode deixar sob a responsabilidade somente do governo, todos devem lutar na erradicação da fome em nosso país. Órgãos não governamentais e toda sociedade devem desenvolver o exercício concreto da cidadania e da caridade fraterna. É de essencial importância a mobilização da sociedade civil brasileira em torno do mutirão contra a miséria e a fome. Com a conclusão do período eleitoral, o Brasil deu um show de democracia através de uma campanha imbuída de clima democrático e de paz social, revelando um notável amadurecimento na participação política do nosso povo. É a hora de unir forças para colocar em sintonia o nosso patriotismo e intensificar o empenho na construção de um Brasil solidário e fraterno. Para alcançar essa meta, é preciso que todos cooperem, apoiando projetos concretos em bem do povo. Essa atitude ajuda a superar partidarismos e ressentimentos e a somar esforços na promoção e na defesa de condições dignas de vida. Para alcançar essas condições todos governantes, nas esferas federal, estadual e municipal, devem assumir com prioridade o compromisso de garantir o direito à alimentação. Esse esforço, oferecendo a oportunidade de uma ação conjunta, há de irmanar as forças vivas da sociedade civil e podem assegurar, em curto prazo, melhores condições de nutrição para nosso povo. A liberdade do processo eleitoral foi básica para o exercício da democracia. Deve, no entanto, ser cada vez mais aperfeiçoada pela participação dos cidadãos em projetos comuns de políticas públicas. É na colaboração cotidiana, vencendo distâncias e unindo forças, que há de crescer a solidariedade que leva à partilha fraterna e, portanto, à diminuição progressiva das desigualdades sociais. Após as atribulações das campanhas eleitorais, chegou o momento de darmos as mãos. Comunidades cristãs, denominações religiosas, organizações da sociedade civil e governos precisam trabalhar unidos para o bem do povo. A primeira etapa é a superação da fome, consequentemente a promoção da paz nas famílias brasileiras.
Antonio Carlos de Melo, Porecatu
Lei do silêncio
Na terra como no céu, a poluição está no fogo, no ar e no bar. Um terço da carga global de doenças que atingem todas as faixas etárias é atribuído a causas ambientais. O que de momento preocupa são as consequências da poluição atmosférica, porque a água, por exemplo, pode ser tratada. Já o ar não.
O monóxido de carbono oriundo dos veículos à gasolina e a diesel, o fumo ingerido pelos fumantes ativos e passivos dos bares, a explosão brega dos karaokês de alta infidelidade amplificados prejudicam a oxigenação do organismo, causando diminuição dos reflexos e da percepção visual, além de insônia, estresse e conflitos. O ozônio presente na atmosfera, em contato com poluentes, é o responsável pelo processo irritativo das vias respiratórias, provocando rinite, ardência nos olhos, laringite, sinusite, bronquite, além de cânceres mortíferos por tumor de laringe, mama e pulmão.
Estado, governos e órgãos não-governamentais devem exigir um meio ambiente equilibrado, dentro dos princípios norteadores da saúde e bem-estar. O desenvolvimento econômico e a fruição de um meio ambiente ecologicamente equilibrado devem interagir.
Em seu depoimento, uma jovem, ex-integrante de uma banda de música, revela que o interior de seu ouvido havia sido calcificado, obstruindo parte de sua audição. O sintoma pré-tumoral seria causado pelos altos decibéis a que constantemente se submetia durante ensaios e shows.
Passando de 80 ou 90 decibéis, o som é lesivo à audição. Uma exposição maior a ruídos, mesmo que em menores níveis decibelimétricos, igualmente compromete a audição, levando à surdez irreversível. Com frequência nos expomos a situações aflitivas em que não se resguarda o direito natural ao silêncio nem na hora de dormir. Atenção senhores promotores ambientais: Curitiba tem Lei do Silêncio (8.583, de 1995). Detalhe: não é cumprida.
JOSÉ FIORI, Curitiba
Desigualdade
Manhã de primavera. Domingo banhado por um sol maravilhoso com um ar ainda puro proveniente da mágica natureza. É nessa hora que tiro para fazer uma reflexão de mais uma semana de trabalho. Agradecer pela minha família, pelas vidas que passam por mim todos os dias, transmitindo-me carinho e preocupação.
Ao passar em frente a uma sorveteria, observei muitos alunos ainda pequenos (5 série), crianças carentes das escolas onde trabalho aguardando na fila para pegar um carrinho de sorvete para vender durante o dia. Alegremente, ao me verem passar, gritaram todos ao mesmo tempo: professora! Parei e perguntei-lhes o que estavam fazendo ali aquela hora. ''Vamos vender sorvetes'', responderam. Tive a curiosidade de saber quanto ganhavam para vender um carrinho de sorvete, durante o dia todo. ''Dez centavos por picolé.'' Fiquei imaginando quanto teriam que andar para ganhar esses míseros centavos. De repente, lembrei-me deles na sala de aula. São crianças revoltadas, sempre nos dando trabalho. Quanta lição de vida! São filhos das injustiças sociais desse País, morando nesta cidade tão pequena. O que estará acontecendo nas grandes cidades?
Mais adiante, ao passar em frente a uma igreja, ouvi alguém suplicar. ''Ó Deus, dai-me sabedoria!'' Olhei para dentro e vi uma senhora bem vestida, acredito estava se preparando para administrar algum culto. Todos pedem a Deus sabedoria e aquelas crianças, será que as pessoas as vêem com sabedoria na hora de ajuda-las? Eu que trabalho diretamente com elas na escola, confesso que me sinto perdida sem saber o que fazer e como ajudá-las.
Ontem à noite, da minha casa, pude observar durante um comício aqui na cidade, quanto desperdício de dinheiro. Muitos fogos, beleza no céu, tristeza na terra. Dinheiro que poderia estar sendo utilizado para ajudar nosso povo renegado. Tenho certeza de que aquelas crianças também estavam lá distribuindo ''santinhos'', sendo exploradas para depois serem esquecidas. Quanto dinheiro público desperdiçado. E no final, quem paga a conta somos nós mesmos, a classe trabalhadora.
O que fazer? Seria preciso o povo se unir e dar um voto de protesto. O que me revolta é que ajudamos esses senhores corruptos a se elegerem. Vivemos numa total emboscada.
Estou ouvindo, nesse momento, o apito dos meninos sorveteiros. Não é desonra nenhuma; estão trabalhando, mas são ainda tão pequenos. Não seria o caso de estarem brincando, em suas casas, com suas famílias? Isso me incomoda muito.
VERA LUCIA GARCIA GRANDE (professora), Marialva





