CARTAS
Crianças do Zerão
No começo você fica com dó: crianças, adolescentes, sentados, em pé, circulando no anfiteatro do Zerão, como quem foi excluído do mundo civilizado. Cheiram cola o dia todo, fazem ''molecagens'', não vão para a escola, ficam por lá. Mas, depois os sentimentos se transformam e você começa a sentir indignação e até mesmo raiva, não sei se dos próprios meninos ou se pelo poder público.
Sou vizinha do lugar e acompanho de perto muitas histórias absurdas que acontecem envolvendo estes menores. Esta semana, por exemplo, um deles usou um cabo de vassoura (através do portão) para quase furar o olho da cachorra de uma vizinha, sendo que o animal estava dentro do quintal da residência. Ainda por estes dias, na própria pista de caminhada, um senhor foi cercado por um adolescente que ao sentir a mínima reação de sua vítima não hesitou em tirar o chinelo do pé e bater-lhe no rosto.
Diariamente, estes meninos e meninas transitam pelas ruas próximas ao Zerão com a desculpa de pedir comida e água para a vizinhança, quando na verdade procuram uma brecha para cometerem pequenos furtos. Quase todas as casas já sofreram no mínimo tentativas de roubo. Ao estender as roupas no varal, por exemplo, a sensação de insegurança é quase inevitável.
Quando eles não conseguem levar o vídeocassete da sua casa e nem um pão com mortadela fazem cara feia, constrangendo os moradores. Muita gente chega a defender que se faça aqui, o que foi feito na frente da igreja da candelária. Como convencer as vítimas destes meninos de que eles são apenas meninos?
A polícia, pela lei, não pode fazer nada, e se apega nisso de forma cômoda. As assistentes sociais da prefeitura fazem abordagens, mas não conseguem evitar que eles permaneçam no Zerão. Deveriam haver outras estratégias. Os menores ousados logo vão ser adultos destemidos e isso vai representar uma ''dor de cabeça'' ainda maior para as autoridades e a população. Quando vai haver o ''Dia das Crianças'' do Zerão?
ADRIANA MATIUZO (jornalista), Londrina
Agentes de saúde
Toda vez que se fala em PSF (Programa Saúde da Família) o profissional da área que mais se destaca pelo seu magnífico trabalho é o Agente Comunitário de Saúde. Todos os méritos e notoriedade alcançados se devem ao fato de que é ele o profissional que atua na linha de frente desse programa, ou seja, é quem realmente está em contato direto com os usuários do SUS, conhecendo todos os problemas e anseios da comunidade em tudo o que diz respeito à saúde, sendo um fortíssimo elo de ligação entre a população e o prestador de serviços públicos.
Todos sabemos que essa categoria profissional está completamente desrespeitada em sua remuneração mensal. Por tudo aquilo que representa e a responsabilidade que tem no exercício de seu ofício, essa categoria precisa urgentemente ser respeitada e tratada com mais consideração pelas entidades que a emprega, porque esses trabalhadores têm sobretudo a responsabilidade de prover o sustento de suas famílias, vestir, estudar e criar seus filhos com saúde e dignidade.
Se os Agentes Comunitários são representados por algum sindicato, se faz necessário uma atuação desse mais presente e intensa, no intuito de abrir diálogos para que a categoria possa reivindicar seus direitos estabelecendo efetivamente melhorias salariais.
Para que o serviço do PSF continue funcionando a todo vapor e com qualidade, é preciso que haja equidade não só na remuneração dos funcionários, nesse caso, dos Agentes Comunitários de Saúde, mas também em toda forma de assistência e amparo nas quais todo trabalhador tem direito por lei.
SANDRA CRISTINA SIQUEIRA, Londrina
Matemática do voto
Democracia no sistema eleitoral proporcional está intimamente ligada à matemática. Temos como exemplo o caso do Enéas do Prona, que com sua votação estrondosa em São Paulo levará com ele para a Câmara Federal deputados eleitos ''democraticamente'' por apenas ''quase'' 300 eleitores. Ou seja, a vontade de 300 eleitores num universo de milhões de votantes prevaleceu democraticamente, ou melhor ''matematicamente'', deixando de fora candidatos com milhares de votos. Esta é uma das reformas necessárias neste país. Os movimentos sociais devem começar uma campanha nacional ''já'' para mudar a lei eleitoral, para que alguns espertinhos não tenham chance de serem eleitos matematicamente e sim democraticamente.
DÓRIS ANDRADE DA CRUZ (sindicalista), Londrina
Tendência natural
Nada é absoluto, tão pouco a certeza de que o governo de Lula, caso eleito, será eficiente na execução de seu discurso. Porém, cabe lembrar que o povo brasileiro está vivendo um conflito, uma espécie de guerra disfarçada. As classes excluídas, em índice muito alto, por força do resultado deste modelo político atual, buscam subterfúgios por fora do sistema legal para a satisfação de suas necessidades.
Tais subterfúgios são ilegais porque a realidade das condições de vida de grande parcela de nosso povo exige a busca alternativa para a satisfação das necessidades. Um dos efeitos dessa situação é a violência, uma realidade evidenciada. Este é um aspecto sociológico, e não pode ser desprezado. Por isso, as mudanças devem ser profundas, pois o objetivo de toda a sociedade é a vida harmônica, baseada no fundamento da dignidade da pessoa humana, disciplinada pela legalidade.
O capitalismo é uma forma eficaz de produção e distribuição das riquezas, desde que as pessoas nele inseridas tenham, ao menos, o mínimo de igualdade de condições para a competição, que é um dos princípios fundamentais para o sucesso desse sistema econômico. E, na ausência desta igualdade, caberia ao Estado promovê-la, inclusive para a sobrevivência do capitalismo. De outro modo, o movimento para a promoção de mudanças torna-se inevitável.
GIOVANI DAGOSTIM (contador), Porto Alegre (RS)
CORREÇÃO
- Por erro técnico, parte do penúltimo parágrafo da matéria de capa da Folha Turismo foi suprimido. O parágrafo completo é:
- ''É difícil descrever a ansiedade e o cansaço em percorrer de ônibus por estradas sem asfalto, telefones ou lanchonetes mais de 300 quilômetros, a partir de Barra do Garças, até um local chamado Gruta do Santuário, no município de Cocalinho, a cerca de 800 quilômetros de Cuiabá. A caverna que abrigou o ritual secreto foi escolhida para os trabalhos do grupo Filhos do Sol, nome condizente com a tradição hermética dos incas e também com a luz e calor que emanam da Serra do Roncador, onde a temperatura chega, pelo menos, a 30 graus durante quase todo o ano.''





