CARTAS
ABSURDO E INSANO
O IAP vai cortar 70 árvores no Horto Florestal de Ibiporã. O primeiro argumento, apresentado pela bióloga responsável, é de que se trata de uma espécie exótica, bastante invasora. De fato, a maioria das plantas assinaladas para o corte são de leucena, porém elas foram plantadas como cerca viva ao longo de todo o trecho que margeia a antiga estrada que ligava Ibiporã a Jataizinho. Portanto, são mais de 500 as árvores adultas da espécie e a eliminação de 70 árvores não estaria atendendo uma providência de ordem técnica, visando proteger de contaminação o interior da mata.
O segundo argumento é de que o horto é pouco visitado e uma das razões é que sua entrada é pouco atrativa porque as leucenas impedem que se veja a diversidade da mata a partir da rodovia. Esta tese me lembra um sujeito que tendo uma rosa nas mãos foi tirando suas pétalas na busca da essência da beleza. Por fim, acabou com o talo verde espinhento na mão. Por fim, o argumento que parece ser mais decisivo é a obra a ser construída no lugar das árvores. Uma calçada de três metros de largura e mais ou menos cem metros de comprimento, ligando o canto do cemitério ao portão do horto. Isto, para dar segurança para as pessoas que, hoje, são obrigadas a caminhar pela pista. Se a questão é a calçada, há várias alternativas para construi-la, alargando a pista na outra margem ou redimencionando sua largura. Ibiporã e a nossa região vem acumulando um enorme débito com a natureza. O aquecimento da temperatura global é hoje um fato e demanda imediata atitude de preservar as matas existentes e ampliação de sua área. Este projeto assumido pelo órgão encarregado de fiscalizar e autuar me parece absurdo e insano. Os governantes, quanto se trata da natureza, são eficientes no corte e na destruição, no presente, e deixam sempre num futuro longínquo o plantio de milhares (milhões) de árvores. Por isso tudo, peço às pessoas sensatas que se manifestem sobre o fato, porque eu, além de não ser a pessoa mais indicada, ando um pouco cansado.
JAIR SALVADOR, de Ibiporã
ELEIÇÕES
Neste ano a população terá a oportunidade de exercer o direito de ''cidadania'' e ''democracia'' através do voto. Mas será que realmente existe uma consciência por parte dos eleitores de que o voto é a prática de cidadania e democracia? Ou será que a maioria quer beneficiar-se individualmente com o voto?
Os políticos deveriam ser nossos representantes, mas diante da vergonha que se encontra o sistema eleitoral, como e quando teremos uma verdadeira representação política? Isto vai depender dos próprios eleitores, talvez quando pararem de mendigar ''coisas'' aos políticos em troca de seu voto? Ou quem sabe quando o povo começar a analisar a pessoa do candidato e suas propostas. Como diz Franco Montoro ''Uma política verdadeira tem como centro a pessoa humana. Não uma pessoa humana abstrata. Mas as pessoas concretas...'' pessoas concretas que tenham personalidade e não façam da política um instrumento para beneficiar a si mesmo mais sim a população em geral.
Apesar da lei eleitoral ser rígida contra os crimes eleitorais, a realidade é totalmente outra. O crime não é cometido somente pelo candidato, mais principalmente pelos eleitores que aceitam as propostas de corrupção oferecidas pelos candidatos, e mais, participa do crime também aquele que se omite diante do fato, pois contribui com a corrupção.
A Constituição Federal afirma: ''todo poder emana do povo e por ele será exercido'', porem o povo não sabe utilizar este poder, simplesmente prefere e acredita ser normal vender seu voto, deixando com que a sua vontade seja influenciada por coisas materiais.
Diante disto, é de fundamental importância fazermos a diferença na sociedade. É preciso consciência política para mudar este quadro da realidade Brasileira, e esta mudança não começa pelos outros e sim por você. Lembre-se que voto não tem preço e sim Justiça, portanto, faça valer esta Justiça, e se você acredita que não precisa da política para viver bem, exerça-a pelos que precisam, pois dela dependem as soluções dos problemas de nosso povo. Escolha com consciência nossos governantes e legisladores.
JOSIANE RIBEIRO DOS SANTOS, de Cambé
A desconstrução da ética
O presidente Fernando Henrique Cardoso meteu-se em novas complicações, na fase conclusiva de seu governo, acusado que foi pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr. de ter sobreposto a política aos direitos humanos, quando arquivou a proposta que lhe fizera de intervir no Espírito Santo, estado, a seu ver, sob domínio da corrupção, além de pólo do narcotráfico e do crime organizado.
Segundo o ministro que, nisso, contesta FHC a intervenção teve apoio do presidente e do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro. Esse último até votou a favor da medida em reunião no Ministério da Justiça, mas, após avistar-se com FHC, mudou de idéia, e a tese de Reale foi arquivada. Resultado: a vida dos autores de denúncias contra os criminosos capixabas corre sérios riscos.
FHC estava em Paris em 1968 ao explodir a revolta antidegaullista dos estudantes e intelectuais franceses, que empolgou os parisienses e abalou a França. Talvez por isso ele pratique o desconstrutivismo do filósofo Darrida, um dos revoltosos da época e torça palavras e atos ao tangenciar dificuldades. ''A recusa da intervenção o fragilizou?'' teria FHC indagado ao demissionário Reale, acrescentando logo, irritado, segundo os jornais, outra pergunta: ''E eu, como fico?''
O que a lógica desconstrutivista do presidente queria? Que Reale ficasse frágil sozinho, como alegara, ao falar da situação ética em que ficaria perante a opinião pública, os subordinados e a própria consciência, no caso, se não protegesse os direitos de terceiros? Afinal, ninguém pode ser forçado a sacrificar-se moralmente em razão da imagem política de quem quer que seja.
Os quase oito anos de FHC na Presidência, lidando com políticos de todos os tipos alguns da pior espécie podem ter pesado mais do que o desconstrutivismo da anti-razão no recuo do governo, que fez o ministro exonerar-se dignamente.
O jornalista mostra fatos, opina, mas não julga. Quem julga é o leitor, o povo na rua, que, aliás, estranha o arquivamento da intervenção, só porque diz-se o governo, se a fizesse, não poderia emendar a Constituição numa emergência.
Até melhor prova em contrário, o único equívoco de Reale, jurista sério, foi culpar a política pelo veto à intervenção. Afinal, o respeito aos direitos humanos foi dura conquista da política. Em termos políticos, tais direitos são aviltados sim, por vezes, mas pela politicalha, que é a antipolítica, a deformação da verdadeira política sobre a qual nada se constrói, em país algum, de proveitoso para os povos.
RUBEM AZEVEDO LIMA, é jornalista em Brasília





