Povo forte
Era uma criança, eu estava no mercado, seus cabelos curtos, jeito de menino desengonçado, boné à cabeça, a dizer: ''engraxá aí tio...''. Olhei o engraxate, olhos altivos, confiantes na única decisão que lhe convinha. Bastou seu olhar, ele me venceu sem tergiversar, sem réplica, sem tréplica. Esperei que ''puxasse'' conversa. Começou a falar pelos ''cotovelos'', descobri tudo o que lhe interessava me fazer saber. Fiquei sabendo que aquela criança de 4 anos que acompanhava o engraxate era sua irmã, e estava ali para aprender a engraxar sapatos, pois seu pai havia morrido, por isso ajudava sua mãe a criar os outros sete filhos. Fiquei pasmo ao saber dos seus apenas nove anos, e que era uma menina. Aí eu entendi o porquê de tanto carinho e espírito de proteção à sua irmãzinha, ali do nosso lado, além da preocupação com a mãe e aos outros irmãos. Vez por outra via ela pelas ruas, sempre nos cumprimentávamos, quando não verbalmente, sempre com o olhar, ela e sua irmãzinha. Anos depois passamos a nos encontrar com mais frequência, aos sábados, no Centro Espírita. Ela ia lá, tomava o passe, tomava a sopa e levava comida e mantimentos para casa. Um dia conversamos novamente lá no Centro, onde lhe perguntei: ''e aí garota, como vai, que menina linda você carrega no colo, é outra irmãzinha?'' Ela, orgulhosa, me respondeu: ''esta é minha filha'', e me apresentou seu companheiro. Passei a respeitá-la muito mais, mais que isso, amei os três. Três crianças...três crianças... Mais alguns anos se passaram. Hoje, pela manhã, peguei o ônibus para o trabalho, ela estava lá. Ela, seu marido, sua filha já crescida e linda, um outro rapaz, que devia ser seu cunhado, e um bebê em seu colo. A família cresceu hem, parabéns! E como ela mudou, é menina-mãe, mãe de dois filhos, cabelos soltos e agora longos, beleza bruta, intocada, virginal. E seu marido, menino-pai de dois filhos com ela, também forte, também dono do seu destino, tal qual o irmão dele a me olhar, dando sinais claros que defendia a todos. Olhou-me com altivez, e, como um camarada de outros tempos, cumprimentou-me economizando gestos, muito gentil, sutil delicadeza que ele sequer se dava conta. A um ponto do caminho, já em Londrina, desceram da ''jardineira''. O marido, daquele jeito dele, todo desajeitado de criança, menino ainda, senhor de si, pegou o filho do colo dela. Ela, por outro lado, em gestos incontidos de energia e força, caminha à frente de todos como a marchar. Mas marchar, marchar para onde? Certamente para a felicidade, a felicidade dela, a felicidade dos seus. Vai, vai menina vai, vai consigo mesma, vai com os seus. Vai buscar uma riqueza que você já tem e talvez não saiba. Mas que elegância, elegância toda própria, toda eles, ainda que fora dos padrões aceitos por elegância. Uma coisa confesso: nunca vi tanta beleza. Povo forte...
CARLOS ALBERTO CURY HARFUCH, Rolândia
Esgoto
Radicado em Londrina há onze anos, mas oriundo de Ribeirão Preto - SP, onde morei por quatro décadas, acostumei-me a ouvir comparações entre essas duas cidades, quase sempre apontando as semelhanças. De fato, elas tiveram trajetórias parecidas, em que pese Londrina ser bem mais nova. Aqui como lá, a fertilidade da terra vermelha lhes conferiu, em épocas distintas, o título de Capital do Café. Também foram as únicas cidades do país a criar empresas de telefonia municipais: CETERP e SERCOMTEL. Infelizmente, porém, as semelhanças param por aí. Nos últimos anos Ribeirão vem experimentando progresso notável, com um comércio rico, onde dois novos shoppings de alto nível vieram se somar ao antigo, agora com novas e modernas instalações. Cerca de trinta salas de cinema apresentam o que há de melhor em tecnologia; as livrarias se multiplicaram e duas mega store foram instaladas. Mas nada disso me provoca saudade. O que me incomoda é mais básico. Lá, como aqui, a companhia telefônica teve parte de suas ações vendidas. A diferença é que, em Ribeirão, a prefeitura aproveitou o dinheiro obtido e aplicou em saneamento básico, que foi estendido a todas as moradias através do Departamento municipal de Água e Esgoto - DAERP. Aqui, bem, o dinheiro sumiu, como se sabe. E mais: a responsabilidade pelo serviço de esgoto é da SANEPAR, cujas prioridades nem sempre coincidem com aquelas dos munícipes. O azar é nosso. Aos que optamos por residir no Jardim Universitário, um bairro classe média antigo, mas desprovido de esgoto, só nos resta amargar a ''fossa'' de não poder eliminar as outras fossas, estas fétidas, que emporcalham o solo e contaminam nossa alma de desgosto. É um sentimento que nem a beleza do Lago Igapó 3 consegue afastar. Até quando?
RUBENS CHIAROTI, Londrina
Cobrança
Se existe, é coisa rara. Eu nunca vi alguém telefonar ou bater a porta e cobrar a conta da água atrasada. Apesar de se pagar uma exorbitância no cavalete e ter que fazer um cadastro com o nome, endereço, RG, CPF e o telefone, a dona Sanepar se limita a mandar a conta e o reaviso. O próximo passo é o corte. Não adianta o consumidor ter um, dois ou cinco anos pagando sua conta de água e esgoto, o atraso é punido com o corte sem um telefonema, mesmo que a conta e o reaviso não tenha chegado ao seu destino. Esses fornecedores de água mal cheirosa e das mais caras do Brasil não se dão ao trabalho de um telefonema para seu consumidor. Mesmo assim são implacáveis na cobrança e nos preços. Interromper o fornecimento de água ou energia sem o devido aviso deveria dar cadeia pois é uma agressão gratuíta associada a falta de gerência.
ROBERTO TEIXEIRA, Londrina

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