CARTAS
Uma lamentável confusão está se instalando entre os agricultores brasileiros sobre a eficiência do cultivo de soja transgênica. Matéria publicada ontem na Folha de Londrina dá conta de que o plantio de transgênicos está acarretando prejuízos de R$ 200 milhões a agricultores do Rio Grande do Sul. A informação foi transmitida através de um levantamento feito por dois professores especialistas em genética e melhoramento das universidades Federal de Santa Catarina e Estadual de Londrina. Eles avaliaram nove propriedades na região de Palmeira das Missões (RS), cultivadas com soja, algumas supostamente transgênicas. Verificaram problemas como baixa germinação, precocidade no florescimento e pouco desenvolvimento vegetativo, conferindo todo o insucesso do cultivo ao fato de ali haver sementes modificadas geneticamente.
Os professores desconsideraram em sua análise alguns fatores óbvios como incompatibilidade de clima e solo. Ocorre que o plantio foi feito com sementes supostamente contrabandeadas da Argentina, já que o cultivo da soja transgênica está proibido no Brasil. As cultivares não são adaptadas às condições ambientais do Norte do RS, onde fica a cidade de Palmeiras das Missões. A soja é um vegetal sensível ao fotoperiodismo e o comportamento de uma mesma cultivar varia de acordo com a incidência da luz solar que recebe. Portanto, uma variedade recomendada para a Argentina não dará as mesmas respostas se for cultivada no Norte do RS, onde a latitute é menor e as plantas entram em floração mais precocemente. Com isso seu desenvolvimento é reduzido e a produtividade é baixa.
Há também que se considerar outros fatores de interferência que provam que os problemas não decorreram do fato da soja ser transgênica, mas sim por ser cultivada sem observação das condições mínimas de indicação e manejo. Equívocos como este podem interferir no ingresso da biotecnologia em nosso país e levar informações distorcidas para o agricultor. A avaliação feita pelos professores debita às mudanças genéticas problemas com o porte e inserção de vagem para colheita mecânica, sem considerar os danos que houve nesta safra por causa da seca registrada no RS. A seca também levou para aquelas plantações um inseto popularmente chamado de burrinho (Lagria villosa), que consome folhas e tecidos mortos. O relatório ousa preconizar que, na ausência de outros vegetais, estes insetos passariam a consumir a soja transgênica, o que não tem qualquer procedência científica.
O levantamento não foi conclusivo e deixa margem para dúvidas e, o que é pior, lança na obscuridade uma discussão que o Brasil vem realizando com muita maturidade. A maior autoridade no assunto, a CTNBIO (Comissão Técnica Nacional de Bio-segurança), formada por ministérios e entidades do setor, se pronunciou a favor da soja transgênica Roundup RR em 1998, alegando que ela não é nociva ao consumo humano. Outro exemplo é da juíza federal Selene Maria de Almeida, que após estudar a matéria por três anos, indo buscar subsídio técnico inclusive no exterior, apresentou parecer favorável ao plantio de soja RR no Brasil.
Por estes danosos enganos, e pelo compromisso que a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) tem com a verdade e o desenvolvimento do agronegócio nacional, vimos a público dar este alerta. E conclamar todo o setor a buscar os grupos oficiais, estes que estão credenciados a debater sobre as conseqüências do uso de soja transgênica no Brasil. A sociedade merece respeito e, acima de tudo, ser informada com responsabilidade.
YWAO MIYAMOTO, presidente da Aprosoja, Londrina
Folha





