Onze de dezembro de 2001. 6h15 da manhã. Terminal Urbano de Londrina cheio da pessoas indo e vindo. Estou indo trabalhar. Desço do ônibus e não vejo minhas colegas me esperando como de costume. Olho o relógio. Não estou atrasada! Fico intrigada. Vou até a saída, olho a Avenida Leste-Oeste e não as vejo. Chego mais perto e começo a entender. Elas estão com medo de três crianças completamente drogadas. Chego perto da mureta que divide o terminal da rua. Um menino se aproxima de mim, tem por volta de dez anos , magro e sujo. Os olhos quase saindo das órbitas, com um saquinho de cola nas mãos. Por incrível que pareça, não tive medo; olhei firme nos olhos dele e disse: ‘‘Jogue fora o que você tem nas mãos.’’ Ele segurou firme o saquinho como se eu fosse tirá-lo dele e disse: ‘‘Esse é o meu lanche.’’ Meu coração parecia que ia explodir de tristeza. Um nó se formou na minha garganta. Um segurança se aproximou e aos gritos espantou o menino. E me disse: ‘‘Cuidado.’’ Cuidado...!?! Atravessei a rua e fui trabalhar. Não consegui tirar o olhar. Na hora de servir os funcionários, mesa farta. Lembrei-me novamente do menino. No final do dia, ao encerrar o expediente, fui novamente ao terminal. Com muita ânsia de chegar em casa e descansar. Lá estava ele, no mesmo local com seu inseparável saquinho da cola. No caminho de casa, dentro do ônibus, olhei pela janela e vi um carro importado e uma senhora dentro com um cachorrinho no colo, com lacinhos vermelhos nas orelhas. Pensei: ‘‘Que ironia, o cachorro tem mais sorte que o menino que cheira cola para disfarçar a fome.’’ Senti culpa e perguntei-me: ‘‘O que eu faço? O que nós fazemos para que isso acabe? Jesus não morreu de braços cruzados! E nós, omissos, cruzamos os braços enquanto vidas se perdem!’’
HELENA ROSA COTOSKI DA ROZA, de Londrina

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