Londrina acaba de comemorar 70 anos. Data importantíssima para uma cidade que, em tão pouco tempo, construiu-se, desenvolveu-se e cresceu assustadoramente. Diversas cidades mais antigas que a nossa não possuem nem o mesmo tamanho nem a mesma importância no cenário regional e nacional. Apesar de todas essas qualificações, devemos atentar para pequenos detalhes que fazem a diferença quando pensamos em nossa história. Não são mentiras, não são falácias simplesmente, mas apenas confusões quando construímos nossa memória. A história de Londrina é marcada por certas particularidades que nos remetem ao estudo da história enquanto um lugar de poder. Como assim? Referimo-nos a um lugar de poder quando podemos dizer o quisermos sem sermos rechaçados por isso. Não é a simples retomada do tempo passado com fins decorativos, mas para podermos ratificar o que queremos dizer agora, neste momento. Por exemplo, na década de 60, os historiadores diziam que a escravidão havia sido uma violência desmedida pois referiam-se, na verdade, à truculência do regime militar e sua impossibilidade de contestação. Hoje, há posições mais flexíveis, que apostam na possibilidade de negociações, que os senhores transformavam certos privilégios dos escravos em direitos. Isto reflete a situação do regime democrático de hoje. O discurso do progresso em Londrina na década de 50 é um bom e claro indício. Quando perguntadas, as pessoas de mais idade dirão : ''Londrina era a cidade do progresso e do crescimento. É lógico que chegaria onde chegou''. Será que é tão lógico assim? Dizemos que é natural pois, afinal, Londrina cresceu. Se não tivesse crescido, jamais diríamos que nossa terra era a cidade do progresso. Seria o mesmo que planejar o futuro no dia que o mundo fosse acabar, não haveria porquê.
Não queremos desconstruir a graça de Londrina, afinal já é uma respeitável senhora de 70 anos. Apenas gostaríamos de alertar para a mitificação que se faz de um curso de coisas que não teve outro final. Devemos sim pensar no que vamos construir de agora para frente, e não apenas nos voltarmos para um passado glorioso e belo, mas planejar de forma consciente o futuro, para que não mais vejamos menores pedindo pelas ruas, sem escola; pais sem trabalho; mães agoniadas com seus maridos desempregados, e todas essas situações que magoam o coração da grande cidade.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI - professor de História, e JOSIANA GUARDA, socióloga - Londrina

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