Os dias 24 e 26 de agosto representam importantes marcos para a história brasileira, com dois eventos cruciais para a garantia da normalidade democrática. O suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 1954, pôs fim à ameaça golpista que rondava o seu governo gerando sérios riscos para a nossa soberania, e a Campanha da Legalidade, em 1961, comandada por Leonel Brizola na condição de governador do Rio Grande do Sul, venceu os mesmos golpistas e assegurou a posse de João Goulart na presidência da República.
‘‘Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história’’. Assim Getúlio encerrou a sua carta testamento, denunciando as forças desencadeadas para que ele não continuasse a defender o povo humilde e os interesses nacionais. Em outro trecho da carta, ele diz: ‘‘Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre...’’.
No discurso de despedida do Senado, antes de assumir a presidência da República, Fernando Henrique Cardoso foi categórico ao afirmar que sua posse representaria o fim da Era Vargas. E as práticas de seu governo comprovam, agora, como está vivo em nossa realidade aquilo que Getúlio denunciou, pois verdadeiramente ‘‘não querem que o povo seja independente’’.
Ao contrário, os sucessivos governos, desde 1964, destroem as bases de nossa economia e estimulam a usura internacional de forma ainda mais acentuada. ‘‘Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida’’, despedia-se o Presidente dos Pobres, assim chamado pelo povo. E o atual governo, o que faz? Atua dia a dia, mês a mês e ano a ano, para entregar o Brasil à cobiça estrangeira.
Os grupos econômicos e a direita nacional recuaram com o gesto de Getúlio, mas continuaram conspirando nos 10 anos seguintes, até o golpe de 31 de março de 1964. Em seguida à renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, praticaram as mais torpes manifestações e ameaças golpistas e tudo fizeram para impedir a posse de João Goulart, inclusive com apoio dos meios de comunicação e do governo dos Estados Unidos, visando a implantar a ditadura no Brasil. Mas Brizola e o povo venceram e, graças à Campanha da Legalidade, Jango foi empossado no dia 7 de setembro.
O jornal ‘‘Zero Hora’’ de Porto Alegre começou a lembrar o episódio já no dia 5 de agosto, publicando parte do depoimento que o então governador Leonel Brizola corajosamente dirigiu aos brasileiros: ‘‘O povo gaúcho tem imorredouras tradições de amor à Pátria comum e de defesa dos direitos humanos. E seu governo, instituído pelo voto popular, não desmentirá essas tradições e saberá cumprir o seu dever’’, proclamou ele, na madrugada de 25 de agosto de 1961.
Brizola soube tanto cumprir aquele dever que pôs a correr os golpistas, enfrentando até mesmo ameaça de bombardeio aéreo contra a sede do governo gaúcho. Vendo tanques do III Exército a pouca distância dali, comandou uma forte resistência popular às decisões dos ministros militares. O poder central entregue a meia-dúzia de deputados, em Brasília, tentou em vão isolar o Rio Grande do Sul do restante do Brasil e Porto Alegre ficou sob ameaça de ataque do porta-aviões Minas Gerais e dos jatos da Força Aérea.
Mas o apoio da população não falhou um instante e, mesmo ignorado pela grande imprensa, o dia 26 de agosto, data da heróica Campanha da Legalidade, faz parte do calendário de lutas dos trabalhistas e de todo o povo brasileiro, como também o dia 24 de agosto, quando um homem deu a vida para impor respeito aos direitos políticos de uma nação.
- VALMOR STÉDILE, advogado e secretário de comunicação do PDT-PR

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