Carta de uma professora - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de março de 1999
Walmor Maccarini 
A professora Maria Ana Bragato, da Escola Prof. Léo Kohler, de Terra Boa, me escreve longa carta (usando os dois lados da folha, para, como ela diz, evitar desperdício), em que faz referência aos recentes artigos que escrevi sobre o que esperamos da escola. Primeiro, diz que a Folha é para ela uma leitura tão importante quanto a oração do dia. E a seguir: Quero esquecer a gramática imperiosa de nossa língua e fazer de conta que estou aí, falando de coração para coração, pois bateu aqui em mim uma vontade extrema de falar-lhe.
Conta que, certa vez na praia, ficou recolhendo o lixo que as pessoas iam jogando no chão, como garrafas plásticas, cascas de coco, e perguntou-se, perplexa: que tipo de educação estas pessoas tiveram?!
Já com 30 anos de magistério, diz que em sua escola, graças a um trabalho em conjunto - direção, supervisão, orientação, professores - são desenvolvidos projetinhos de boas atitudes, e ninguém joga lixo nem na sala de aula, nem no pátio. Aqui em nossa escola não há só preocupação com o conteúdo - ela afirma - mas vamos além. Nossos alunos usam palavras mágicas como bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, muito obrigado, com licença, desculpe-me...
A professora Maria Ana diz acreditar que estas crianças sejam pessoas melhores, no futuro. Eu amo minha escola, eu amo meus alunos.
Seus artigos me impulsionaram, deram-me mais coragem e vontade de lutar por uma cidadania escolar verdadeira - afirma, referindo-se ao que escrevi dias 11 e 18 de fevereiro, sobre o papel da escola.
Que não tenhamos só professores, mas educadores - ela alerta.
Conta o caso de um aluno seu que estampava na camiseta um conceito pouco lisonjeiro à mulher. Pronto - diz ela - foi o motivo de minha aula. Moralismo? Não. Simplesmente comecei a falar da beleza da mulher, da beleza da mãe; que viemos através dela e que este foi um ato lindo. Mudei o conteúdo da aula. O aluno é culpado pelo uso de tal camiseta? Em parte, porque o empresário que a produziu, com aquela estampa, estava desvalorizando o corpo da mulher, ademais nada preocupado com o futuro dos jovens que iam vesti-la.
Conta que conseguiu, de comum acordo, que a camiseta fosse trocada por outra que ela arranjara, e tudo terminou bem. Crê que tenha despertado a consciência do aluno.
Narra o episódio de uma professora que vangloriava-se de haver dado zero ao aluno, porque ele fizera a prova com tinta vermelha. Ele tinha que saber que esta cor é da caneta da professora - foi a absurda justificativa da mestra. Maria Ana diz em sua carta que não quer criticar ninguém, porque também já fez práticas pedagógicas erradas; que não pretende ser melhor que seus companheiros professores, mas que recebeu uma educação que considera de primeira, por isso tem o dever de ser cuidadosa e (subentende-se) passá-la adiante.
Afirma ter 28 turmas de jovens e que muitos chegam com pensamento negativo e medo da vida. Mas demonstra, pela narrativa de sua carta, que busca remover isto da cabeça destes jovens, ela mesma sorrindo, apaixonando-se pelas pequenas coisas, como uma flor e um brotinho de árvore, o sorriso de uma criança. E os alunos, certamente, percebem e absorvem essa sabedoria.
Em nenhum momento de sua carta ela menciona sacrifícios, certamente consciente de que, neste país, todas as classes trabalhadoras sempre viveram dificuldades. Exalta apenas seu amor pelo que faz.
Walmor Maccarini é jornalista em Londrina


