Fui convidado de Londrina, em dezembro último, para as Jornadas de Desenvolvimento Regional e de Tecnologia e a Associação de Desenvolvimento Tecnológico de Londrina (Adetec). Sou português, e estive em Londrina também na qualidade de vice-presidente da Eurada (Associação Européia de Agências de Desenvolvimento Regional), a qual envolve 156 estruturas técnico-institucionais representantes de igual número de regiões dos diversos países da Europa. O Paraná procura promover a implementação de estruturas deste tipo, conforme o secretário do Planejamento, Miguel Salomão, explicou, anunciou e demonstrou durante as Jornadas de Londrina. Londrina não irá, por certo, ficar fora desse movimento, pois já tem em pré-constituição uma Agência de Desenvolvimento Regional.
Devo confessar que nem sabia que Londrina existia. É uma cidade que não sairá das minhas memórias, encontrando aí lugar de destaque, no meio dos mais de 20 países e de 200 cidades que já visitei. Em Londrina descobri muito potencial. Uma excelente Universidade (UEL), que é 3º lugar no ranking federal; um enorme dinamismo institucional na Adetec, na Codel, na Incubadora de Empresas; o entusiasmo inovador e a juventude das idéias, todos com a probabilidade de poderem ser transformados em projetos e processos de transformação e melhoria da qualidade econômico-social de Londrina e da região Norte do Estado.
Claro que a cidade também tem problemas, quem os não tem? Por isso me impressionou a vontade de os identificar, afrontar e ensaiar processos e modelos de solução. Melhorar o ambiente, em todas as suas vertentes, foi coisa comum que ouvi de todos. Aumentar o emprego, qualificar o emprego existente, potenciar o valor econômico agregado, aumentar a sustentabilidade econômico-social, foram outros pontos comuns que ouvi.
Atrevi-me a dizer nas Jornadas que o desenvolvimento integrador é acima de tudo um ato de maturidade individual, coletiva e institucional. Realmente, dando os parabéns pelo que me foi dado viver, devo aumentar a intensidade dos mesmos, por ter verificado, em muitas pessoas, o desejo de construir uma efetiva agregação interinstitucional, envolvendo o setor público e o privado, em perspectivas de intervenção interdisciplinares, que possam potenciar o que cada um tem de melhor, colocando o positivo de cada um num quadro mais vasto de coordenação interdisciplinar e interinstitucional.
Pela experiência de vários anos em processos semelhantes nos seus objetivos, posso dizer que será tarefa de todos, sem exceção, essencialmente quando se tiverem de pôr de acordo sobre o como fazer, quem deve fazer, com quem se deve fazer e, essencialmente, como tudo isso deverá ser avaliado, na ótica da melhoria concreta e operativa da qualidade de vida dos cidadãos.
Os problemas que me foram colocados têm uma coisa em comum nos dias em que vivemos: ninguém os consegue resolver por si só sem interagir e trabalhar com os outros. A minha experiência profissional demonstra-me que a efêmera visibilidade pessoal é sempre inimiga estrutural da duradoura transformação qualitativa das realidades econômico-sociais.
Nas Jornadas, as surpresas foram muitas. Mas o essencial foi a revelação, para mim, de que o governo do Paraná tem um modelo estratégico de desenvolvimento regional e territorial e de que a área do ensino superior e da tecnologia já possui uma rede infra-estrutural de alto nível. Foi também a revelação de que os organizadores tinham uma intenção estratégica de aproveitar as Jornadas para a mobilização técnica, institucional e orgânica do maior número de atores da região, em torno de dois processos essenciais: a afirmação de Londrina como cidade tecnológica de qualidade e iniciar a caminhada para uma maior lógica de integração interinstitucional.
O desafio do governo do Estado foi claro, ao dizer que apoiaria e estimularia a implementação de Agências Regionais, que sendo a estrutura técnica de Fóruns Regionais, pudessem dar maior capacidade de ação técnica coordenada às diversas estruturas da região. Por outro lado, diversas estruturas públicas e privadas assinaram um protocolo de acordo sobre a criação de um projeto estratégico designado por Tecnopólis.
Enquanto representante de uma estrutura européia cujos diversos membros têm entre si grande experiência deste tipo de processos, e das suas dificuldades, não pude deixar de me satisfazer, e de aproveitar esta oportunidade para dizer às gentes de Londrina para não deixarem de se envolver, com sentido crítico e pró-ativo, nestes processos. Por que e como? Tenho certeza de que as instituições de Londrina, em cooperação com os diversos órgãos do governo do Estado, irão saber equacionar este sistema de variáveis, que por vezes assume caráter de organização institucional e por vezes forma de desafio técnico organizacional.
Por isto me arrisquei a dizer durante as Jornadas, e em algumas conversas, que Londrina teria de encontrar o seu próprio modelo, não fazendo recurso ao modelo típico de ‘‘contratar alguns belíssimos cérebros’’, mas antes mobilizando coordenadamente o muito de bom que já possui, ainda que por vezes não assumido como sistema de sinergias, recorrendo, eventualmente, a alguma cooperação externa, desde que a mesma assegure uma efetiva transferência de saber fazer, trabalhando com Londrina, assumindo-se como parte integrante e solidária do processo.
Estou certo que Londrina e o Norte do Paraná têm todos os ingredientes necessários para a confecção de ‘‘um belíssimo cardápio do desenvolvimento’’, tendo ainda ‘‘vários bons cozinheiros’’ tão necessários a esse fim. Por isso podem e devem arriscar-se a ‘‘fazer futuros’’. Fiquei deveras sensibilizado ao sentir convergências de objetivos entre excelentes docentes da UEL, técnicos de promoção e desenvolvimento institucionais locais, regionais e estaduais.
Por isso o vosso ‘‘cardápio’’ deve ser único por ser o vosso. Quais os ‘‘pratos’’? Do que me pareceu sentir e de todas as conversas em que tive a honra de participar, pareceu-me que de ‘‘entradas’’ devam ser servidos: melhoria ambiental; criação de valor agregado na economia rural; promoção de maior conexão entre as diversas instituições; identificação de setores prioritários de crescimento econômico; identificação de setores prioritários de criação de emprego de proximidade.
Como ‘‘sopas’’: saber-fazer de cooperação - como cada um melhora o todo; programas de demonstração tecnológica aplicada aos setores identificados nas ‘‘entradas’’; estimulação de redes de cooperação empresarial, verticais e horizontais, em diversos setores econômicos, envolvendo a potenciação das pequenas e médias empresas; coordenação do planejamento com o econômico. Como ‘‘especialidades’’: Tecnópolis da qualidade (prato virtual baseado na criação de redes de informação, conhecimento e transformação/inovação).
O menu deve conter, como ‘‘peixes-carnes’’: programas de partilha, transferência e demonstração de tecnologias aplicadas de valor agregado quer na ótica econômico-social, quer na sócio-econômica; programas de combate ao desemprego estrutural associado aos mecanismos de capacitação profissional e de criação de macroempresas; programas de promoção de estratégias promotoras da economia local e de proximidade; programas de potenciação econômica de infra-estruturas públicas.
Em ‘‘doces/frutas’’, programas de promoção integrada da região, multiinstitucionais, em lógicas de abordagens de mercado segmentares específicas; programas de cooperação intra-estaduais, nacionais ou internacionais selecionados em função da estratégia do ‘‘cardápio’’; e em ‘‘caf钒, um do tipo excelente, mas originário de uma ‘‘fileira setorial’’ mais moderna, que gere valor agregado, aproveitando a excelência histórica da matéria-prima produzida, a qual merece de todas um ‘‘maior sabor do seu valor potencial’’.
- VITOR SOARES é 1º vice-presidente da Eurada em Lisboa (Portugal)

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