Carta de Natal
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de dezembro de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
De repente, o espírito de Natal se afastou para algum lugar do tempo e não consigo saber aonde foi parar. Não me refiro, é claro, ao significado da data. Para todos os efeitos Jesus nasceu em 25 de dezembro, se bem que já ouvi dizer que não foi exatamente nesse dia, que teria sido utilizado por conta de certas coincidências mitológicas tomadas de empréstimo a religiões nas quais o cristianismo colocou a pecha de pagãs. Mas a data importa menos do que a simbologia, tal como foi proposta pela Igreja erigida em nome de Deus. Portanto, Natal, para todos os efeitos, é o nascimento do Menino Jesus. E não foi a isso que me reportei quando disse que sentia o Natal perdido nas brumas do passado.
O que se afastou sem deixar rastro tão pouco se refere aos festejos. Eles existem e dizem respeito a comes e bebes. Aliás, evocam muito mais praia do que igreja. Na igreja eu ia quando ainda bem jovem, assistir à Missa do Galo. Imitando a devoção dos circunstantes, queria mais era ostentar sobre a cabeça a bela mantilha de rendas brancas, presente que uma tia rica me trouxera da Espanha. Tinha a vaidade de exibi-la e, assim, cometia um pecado. A igreja com seu odor peculiar, recendia a incenso, velas queimadas e gente reunida e eu elevava meu olhar piedoso aos altares dos santos, na verdade pensando na ceia e nos presentes que encontraria ao pé da árvore de Natal. Isso demonstra que em épocas mais recuadas já se manifestava a amálgama de Jesus com Papai Noel, de religiosidade com comércio. Só que a tradição religiosa suplantava o consumo e agora se dá o contrário.
Pensando assim, tenho a sensação de que o espírito de Natal escapou por alguma ignota dobra do tempo. Ficou em seu lugar uma certa nostalgia que não consigo preencher com bolas coloridas. É nisto que dá a perda das tradições.
Então, às vésperas desse Natal de 2001 da era cristã, em vez de escrever para Papai Noel, como fazia quando era criança, resolvi redigir algo para Jesus. Nesta carta apresento-lhe minhas perplexidades diante da lógica do absurdo deste mundo:
Senhor, imersa no castigo do calor deste Natal tropical, aceito que sou um mistério. Nunca consigo me decifrar inteiramente. Os imprecisos limites de minha liberdade e a escravidão de minhas circunstâncias jamais irradiam claridade suficiente para serem enxergados com precisão e contornados com pleno êxito. Sinta, pois, Jesus, como sou humana.
Em matéria de sentimentos tenho certezas fulgurantes, mas esbarro em sentimentos alheios e presencio mistérios mais densos que os meus. Na impossibilidade de transpor o abismo dos outros, corro sempre o risco de me tornar uma colecionadora de perdas, de me perder nas veredas do inatingível, nas teias da ilusão. Sempre esbarro na liberdade dos que me cercam e que parece mais ampla do que a minha.
Prosseguindo, descubro o quanto caminho sobre terrenos escorregadios, sobre áreas pantanosas. Deste modo, inúmeras vezes padeço da superficialidade do viver onde habitam os pré-julgamentos, os erros sem volta, os sofrimentos inúteis. E nesse aspecto, Mestre, recordo as palavras do seu amigo Paulo: ''Não faço o bem que quero mas o mal que não quero''.
No árduo, franco e humilde exercício de pensar, reflito sobre o sentido de minha existência. Indago até que ponto posso alcançar o objetivo máximo de todo ser humano: a felicidade compreendida felicidade com sensação de bem-estar e plenitude conquistada a partir de uma meta concebida como prioritária em determinado momento mas não consigo respostas convincentes. Mesmo porque, meus desejos sempre esbarram em vontades alheias e sempre uns levarão vantagens sobre outros, o que faz surgir os derrotados e os vitoriosos. Já perdi várias vezes, Jesus, várias vezes.
Diante dessa realidade, como fica o controle sobre meus propósitos e necessidades? Como poderei me autodeterminar para encontrar os verdadeiros limites de minha liberdade? Talvez, o único jeito de trilhar as superfícies inescrutáveis do destino ou enfrentar as ciladas do acaso, seja tentar construir pontes entre mim e os outros. Talvez falte ao Natal esse ato de construção, de engenharia humana que ficou perdido em alguma curva do tempo e que precisaria ser resgatado. Não acha, Jesus, que pelo menos nesse ponto eu tenho razão?
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora e professora universitária
[email protected]


