Carta às pessoas de boa vontade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de setembro de 2001
Ney Leprevost 
Refletindo sobre os lamentáveis e deploráveis fatos ocorridos recentemente nos Estados Unidos, onde seres humanos de mais de 60 países foram vítimas desta modalidade covarde de crime que é o terrorismo, resolvi expressar a minha modesta opinião sobre o assunto mais debatido no momento.
Em primeiro lugar devemos ressaltar que nem todos os árabes são muçulmanos, que nem todos os muçulmanos são fundamentalistas e que nem mesmo todos os fudamentalistas exercem atividades terroristas. Muito pelo contrário, o mundo tem hoje mais de 1 bilhão de seguidores da religião islâmica fundada pelo profeta Maomé, e a interpretação correta do Corão (livro sagrado dos muçulmanos) é semelhante a das outras religiões, ou seja: amor a Deus, paz e solidariedade. Portanto, qualquer tipo de discriminação ao povo árabe ou aos palestinos deve ser veementemente contestada.
Em 1999, quando coordenamos o Congresso da Abav em Curitiba, tive o prazer de conhecer Mitre Abu Aita, ministro do Turismo da Autoridade Palestina, que aqui esteve para divulgar a cidade de Belém, local onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo. Confesso que fiquei surpreso com o preparo, a educação e a cordialidade do ministro e sua comitiva.
As longas conversas com Abu Aita e o relato de dezenas de pessoas que têm visitado os países árabes me levam a crer que as imagens que têm sido veiculadas pela mídia internacional de palestinos comemorando o ataque terrorista ao World Trade Center, refletem apenas o sentimento de uma minoria de pessoas que se deixa levar pela terrível mistura de política e religião. Prática que alguns ditadores sórdidos como Sadam Hussein, do Iraque, procuram difundir entre os povos do Oriente Médio, canalizando em ódio contra os Estados Unidos e Israel o sofrimento em que vive essa gente. É evidente que existem outros fatores históricos e culturais para que parte dos povos árabes não simpatize com o Ocidente, mas sem dúvida a manipulação dos veículos de comunicações pelas ditaduras é o principal deles.
Porém, não simpatizar é uma coisa, e praticar atos violentos ou terroristas é outra, completamente diferente. Portanto, estou convicto de que se o Ocidente optar por uma retaliação indiscriminada bombardeando o Oriente Médio, estaremos praticando um massacre injusto (será que existem massacres justos?) e praticando exatamente o mesmo crime racial que um ser repugnante chamado Adolph Hitler praticou contra nossos irmãos judeus durante o Holocausto. As redes terroristas espalhadas pelo mundo devem ser combatidas e aniquiladas, mas a guerra tem que ser evitada a qualquer custo.
Espero que os líderes mundiais tenham juízo neste momento. Que se inspirem em João Paulo II, nosso Santo Padre, que perdoou o homem que atirou contra ele. No Dalai-Lama, líder espiritual e temporal do povo do Tibet, que nos ensina que o ''ódio é mais danoso a quem o carrega consigo do que ao causador do mesmo''. Em São Francisco de Assis, que diz: ''Onde houver ódio, que eu leve o amor...'' Em Gandhi, que nos ensina: ''Olho por olho e todos acabaremos cegos''; com Bill Clinton, que tenho certeza a história reconhecerá como um grande estadista - com ele no comando do país mais poderoso do mundo, a humanidade dormia mais tranquila. Seus esforços para promover a paz entre palestinos e israelenses foram algo de formidável que a América viu em um líder mundial.
Espero que com os tristes acontecimentos de Nova York e Wasnhington o presidente George W. Bush passe a se preocupar mais com a miséria no Terceiro Mundo e com a tensão no Oriente Médio. Os primeiros sinais de amadurecimento ele parece estar começando a demonstrar em suas mais recentes declarações.
Sinto-me insuspeito para escrever essas palavras porque sou católico (e pecador), tenho descendência libanesa, tenho entre meus melhores amigos líderes da comunidade israelita de nossa cidade. Quando apresentei, na Câmara Municipal de Curitiba, o projeto de criação de um monumento às vítimas do Holocausto imaginei que lembrando as milhares de vidas destruídas por Hitler o homem estaria vacinado contra a intolerância.
Com o estrondo das torres gêmeas acordei e percebi que ainda temos muito o que aprender. É por isso que escrevo. Pela Paz! Pela solidariedade! Pelo respeito aos nossos semelhantes e principalmente aos nossos diferentes.
Esse respeito começa dentro de nossa casa e de nossa cidade, com o reconhecimento de que somos seres imperfeitos e passíveis de erro. Devemos segurar nossa língua de toda a maldade e guiar nossas mãos para estancar o sangue que corre, muitas vezes por nossa omissão, dos excluídos, dos marginalizados e dos famintos. A vida é um presente de Deus, o respeito ao próximo é a retribuição que Ele espera de nós!
- NEY LEPREVOST é vereador (sem partido) em Curitiba e foi secretário estadual de Esporte e Turismo do Paraná


