Carta aberta a Antonio Ermírio
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de outubro de 2001
Ivo Pugnaloni 
Prezado Antônio Ermírio: como muitos brasileiros, admiro seu modo de encarar o Brasil e seus governantes. Escrever-lhe foi uma decisão fácil. A carta é pública porque seu conteúdo também o é. Além disso, o adiamento do leilão da Companhia Paranaense de Energia (Copel) precipitou os fatos.
Meu objetivo é conseguir seu apoio para, de forma honesta e transparente, encontrar-se um caminho seguro para a participação da iniciativa privada na reestruturação acionária da Copel, da qual, quis o destino, você poderá escolher participar de uma das duas formas que resumo a seguir.
Da primeira forma, você participaria aproveitando-se das fraquezas de um governo em fase terminal para adquirir, por preço vil, o controle, (provavelmente temporário), da melhor e maior empresa do Sul do Brasil. Da segunda, juntando-se à sociedade para encontrar alternativas coerentes e patrióticas a um modelo de privatização que já se mostrou ineficiente, injusto e inseguro.
Na primeira forma, você terá a perspectiva do lucro fácil e a tentação de dar uma resposta irônica àqueles que no ano passado negaram-lhe financiamentos que foram concedidos abundantes a grupos estrangeiros, como aconteceu no caso da Cesp.
Na segunda forma, o desafio do novo e do patriótico, este adjetivo que ultimamente só ouvimos ser usado para elogiar a indignada reação de outros povos e governos, quando em risco estão sua segurança, seu mercado e seu modo de vida. Na primeira forma, a bajulação dos áulicos de sempre, mas a desconfiança permanente de quase 10 milhões de seus futuros clientes e a certeza de grandes riscos de prejuízos no próximo governo. Na segunda forma, a audácia de respeitar a vontade dos verdadeiros donos da empresa e a tranquilidade de continuar seguindo uma trajetória familiar de independência das benesses governamentais.
Prezado Antonio Ermírio: o processo de alienação da Copel já é o mais corrompido de que se tem notícia em todo o mundo. Se seus auditores procurarem nos lugares certos, vão descobrir aquilo que decisões ligeiras não encobrirão por muito tempo: este processo é uma verdadeira armadilha, uma bomba-relógio pronta a explodir, atingindo a todos que dele fizerem parte, ainda que de boa fé.
A verdade é que altos funcionários, protegidos pelo presidente da empresa e pelo governador do Estado criaram para si próprios, com recursos humanos e financeiros da Copel, mais de 30 ''subsidiárias'', que logo em seguida eles mesmo contrataram, sem licitação, sob cláusulas extremamente desvantajosas para a empresa, para seus acionistas e consumidores.
E principalmente, sob cláusulas de multas rescisórias milionárias, que você talvez ainda não conheça, mas que farão do novo controlador um refém, comprometido com a quase impossível tarefa de ocultar graves ilicitudes cometidas durante o processo e dependente de contratos que criam apêndices e parasitas à Copel privatizada.
Ou terá sido outra a razão pela qual todos os demais interessados, experientes operadores de empresas do setor elétrico, desistiram do negócio? Inclusive a própria RWE, que durante um ano e meio manteve seus próprios auditores dentro da Copel?
Antonio Ermírio: o Brasil precisa de sua experiência para encontrar a forma adequada de participação da iniciativa privada no setor elétrico. A rapinagem e o lucro fácil não podem ser único caminho. Que o digam os mais de 3,6 TWh/ano (1% de todo o consumo brasileiro) gerados para consumo próprio pelo Grupo Votorantim, em usinas construídas ao longo de 48 anos de história. Aguardamos a sua resposta.
- IVO AUGUSTO DE ABREU PUGNALONI é engenheiro eletricista e consultor em energia em Curitiba
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