Carta aberta à AmBev
Armando Mendes
Prezados senhores Victório Carlos de Marchi e Marcel H. Telles, executivos principais das finadas Companhia Antarctica Paulista e Companhia Cervejaria Brahma; prezado senhor Magim Rodriguez Júnior, diretor da recém-nascida Companhia de Bebidas das Américas (ou American Beverage Company, ou Compañia de Bebidas de las Americas - AmBev). Permitam-me ir direto ao assunto: e nós, simples apreciadores da cerveja, como ficamos nessa história? Os preços vão subir? Vamos ter menos cervejas para escolher? E, afronta suprema, os sabores serão padronizados?
Garanto-lhes: é só o que se comenta nos bares, botequins, restaurantes, cozinhas, praias e campos de futebol deste País. Estamos muito preocupados. Todos entendemos as razões econômicas da fusão: economias de escala, racionalização de investimentos, globalização, essas coisas... Até admiramos a ousadia dos senhores ao partirem para a briga com Heinekens, Anheuser-Buschs, Kirins e outros pesos pesados.
É aquela história: se não tiver outro jeito, se você tiver de brigar com o Mike Tyson, não vá sozinho. Vá de turma. Tudo bem. Mas aqui pra nós: cartel é cartel. Cartel tem uma lógica interna própria. Incentiva tudo o que faz bem à prosperidade de seus acionistas. Nunca a de seus consumidores.
Não é nada pessoal, entendam. É a história econômica que ensina. A fusão pode fazer sentido do ponto de vista do mercado global. Mas vista daqui, nos dá todo o direito de ficar preocupados.
Permitam-me outra pergunta direta: se é para manter marcas, campanhas publicitárias e redes de distribuição inteiramente independentes, qual o objetivo da fusão? Por exemplo, os investimentos: se os senhores puderem abrir só uma fábrica na região Centro-Oeste, e produzir nela todas as suas cervejas, não abrirão duas.
Por que não aplicar a mesma lógica a outros custos, então? À publicidade, ao número de marcas que oferecem, à caríssima estrutura de distribuição por este enorme continente? Por que não juntar tudo, padronizar tudo? É uma tentação, com certeza.
E faz pensar. Afinal, a justificativa moral da economia de mercado - se podemos falar assim - é exatamente a liberdade de escolha do consumidor. E o que asseguraria essa liberdade? A pluralidade, a concorrência.
A economia de mercado impôs-se neste fim de século. Há até quem ache que a história acabou. O comandante Fidel, o último comunista, virou aquele tio excêntrico nas festas de família, como diz o Veríssimo. E o que acontece?
A pluralidade está dançando. Os maiores interessados na livre iniciativa correm para formar conglomerados globais, cartéis irrecorríveis. E o consumidor tem cada vez menos liberdade de escolha. A lógica do cartel, evidente, é a da padronização, da mesmice.
Alguma coisa está errada. A pluralidade, afinal, é o que torna o mundo interessante. Já pensaram se todo o mundo tiver um dia de beber só Budweiser (que Deus nos livre e guarde de tal desgraça)?
Filósofos, economistas e historiadores nos devem explicações. Enquanto isso, por favor, uma última advertência: se os senhores subirem preços, padronizarem o gosto das cervejas, caírem na mesmice, enfim, cometerão grave pecado. Mas o pecado será ainda mais imperdoável se o gosto-padrão for o da Malt 90. Muito obrigado pela atenção.
- ARMANDO MENDES é jornalista em Brasília

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