Carta a uma mãe sofrida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de julho de 2003
Walmor Macarini 
Há dois anos, a morte de duas crianças por atropelamento causou comoção em Londrina, e na última segunda-feira a jovem mãe desses pequenos publicou carta na seção especializada desta página, rememorando o episódio e revelando toda a sua dor e a sua revolta. Porque, no seu entender, o rapaz causador do acidente já deveria ter sido punido.
Os dois fatos são muito tristes: a perda dos filhos ademais de forma tão trágica e a obsessão pela punição, que tomou conta dessa angustiada mulher. Ela sofre, pelas duas razões, e necessita de muita emanação de paz, que deve partir de todos quantos possam e desejem fazê-lo. E não apenas para ela, mas para tantas mães e famílias que perderam seus filhos de forma violenta.
No mais dos casos a dor das mães e dos familiares acaba se convertendo em ódio e em ânsia de punição para os criminosos e causadores de acidentes. Mas esse clamor impregnado de ira não é bom, porque atinge também as vítimas que se foram, eis que nesse clima elas também não encontram paz. Rememorar sistematicamente os acontecimentos é trazer as vítimas de volta ao palco da tragédia. E assim elas não sobem para o lugar onde devem ir, agora que se encontram em outra condição.
Se a dor é funda e o consolo difícil, não se pode aprisionar, pelo apego e pelo persistente inconformismo, essas pessoas que tanto queríamos e que nos deixaram. Temos de permitir que elas sigam sua nova trajetória. Embora a pouca idade dessas duas crianças no momento do desenlace, elas já devem ter, a essa altura, uma certa consciência do que lhes aconteceu. Mas podem sofrer pela situação da mãe e sentir o peso dessa obstinação de punição que a envolve.
Muito difícil é compreender o fenômeno da morte, e todos nós ainda não aprendemos a lidar com ela. Mas a morte é apenas um adormecimento aqui para um acordar ali. Chegará o momento do reencontro. Por ora, há que buscar, por todas as formas, o caminho do perdão, e esse primeiro passo que não é fácil precisa ser dado. Todo o auxílio dos céus virá, mas a decisão tem de começar aqui.
Incidentes dolorosos como esse são uma provação, uma forma de purificação e de abreviação de resgates, sobretudo para os pais e parentes próximos. Também o é para o causador do acidente. Há todo um encadeamento e uma estreita relação entre os personagens envolvidos, que escapam à compreensão da maioria das pessoas. Certamente o tempo terreno dessas crianças já havia se cumprido. O ideal seria essa mãe poder compreender. Assim sua dor iria se diluindo e suas crianças ficariam contentes com isso.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


