Carta a um pároco - Maria Lucia Victor Barbosa
Maria Lucia Victor Barbosa
Costumo responder aos que se dirigem à minha pessoa, exceto quando o fazem em nível incompatível com uma polêmica salutar e civilizada. Em alguns casos, respostas têm o condão de estabelecer o diálogo, o que conduz ao enriquecimento das idéias não só dos que participam diretamente do debate, como daqueles que ouvem ou lêem o que é argumentado. Isso não quer dizer que os envolvidos na polêmica tenham que abrir mão de suas convicções. Porém é certo, que se o pensamento dos debatedores não for eivado de radicalismo, eles terão a possibilidades de enxergar novos ângulos de determinado assunto. Isto poderá fazer com que um deles ou ambos mudem de idéia ou, então, que ampliem seus argumentos para tornar mais sólidas suas opiniões.
Com este espírito elevado dirijo-me ao pároco de Santa Terezinha do Menino Jesus, da cidade de Sarandi, padre João Caruana, que tendo lido meu artigo Os guerrilheiros e o MST, fez algumas ressalvas sobre o mesmo no seu texto de terça-feira passada, MST, guerrilheiros, lei, e religião, neste mesmo Espaço Aberto.
O padre João cita, ao que me parece com certa admiração, uma entrevista de João Stédile em que este afirma, que a força do MST vem de 5 milhões de famílias que querem terra, uma vez que o movimento não possui Polícia e Exército, como o Estado, e nem o dinheiro dos latifundiários corruptos.
Não entendi por que o padre João não percebeu nessa fala o toque revolucionário à moda marxista, pois Marx não se conformava que a maioria fosse espoliada por uma minoria e, por isto pregava a revolução do proletariado, coisa que na prática nunca deu certo. Além do mais, é um discurso inverídico (dinheiro não falta ao MST) e radical (todo fazendeiro é latifundiário e todo latifundiário é corrupto).
Portanto, a entrevista de Stédile não me desdiz quando, baseada em circunstâncias reais ocorridas na Fazenda Sandra (onde os sem-terra receberam a polícia com bombas de cal, um laça-chamas, coquetéis molotov, barricadas e trincheiras, além de colocar fios de arame liso sobre uma pista de pouso) argumentei que o MST descambou de vez para a guerrilha como tática revolucionária. Isto sem falar que nas fazendas invadidas os sem-terra não costumam plantar como verdadeiros vocacionados do campo, mas destroem sedes e maquinários, matam animais, ateiam fogo às plantações, tomam funcionários como reféns e ameaçam proprietários.
Talvez o padre justifique tais ações e ache injusta a lei que coíbe esses abusos. Respeitarei sua opinião sem mudar a minha, pois se ambos somos a favor da reforma agrária, divergimos nos métodos.
Concordo que Stédile não foi bem-visto pelo Planalto, mas por conta de uma outra entrevista, quando incitou as massas pela imprensa, não apenas a invadir terras alheias, mas a saquear supermercados, invadir prédios públicos, bancos etc. E creio que a sociedade também não gostou dessas maneiras de chamar atenção, como dizem os defensores da força como parteira das revoluções.
Em todo caso, o governo não aplicou nenhuma sanção a Stédile, como de resto não aplica a lei na maioria dos casos de invasões. Justamente essa impunidade que campeia em nosso País é que estimula lideranças como Stédile ou José Rainha. Completamente à vontade, eles pregam a desordem como meio de chegar ao poder, sendo que Rainha, apesar de ser acusado de dois crimes, sempre conseguiu escapar dos julgamentos marcados.
Não sei o que o padre João entende por ordem jurídica justa, a qual parece almejar, mas como disse Joel Samways, se o MST acha que as leis que estão aí são injustas, que elejam seus legisladores para mudá-las, caso contrário, respeite-as.
Depois da lei, chegamos agora ao ponto mais interessante do artigo do padre: a religião. Li com atenção as citações que fez das mensagens do papa. Gostei muito. Este é um grande papa. Foi ele uma das peças importantes para a derrocada do sistema comunista, que pregando falsamente a igualdade anulou a liberdade, inclusive a religiosa. Foi ele quem pediu à América Latina perdão pelos erros aqui cometidos pela Igreja. Erros que Sua Santidade sabe, ajudaram a criar nossas sociedades desiguais, injustas, de moral dúbia, avessas às leis, imersas na corrupção que sempre grassou de cima a baixo da sociedade. Erros que deram origem a esses que hoje clamam pela reforma agrária e recebem o engodo de caudilhos sedentos de poder. O Santo Padre sabe que a cruz e a espada interagiram nessas plagas latino-americanas para fazer de nós o que somos: sociedades erguidas sobre a escravidão e a destruição das culturas dos autóctones, pela Igreja.
Quanto ao padre Marcelo... Aí entramos na questão dos carismáticos. Eu os vejo como antídoto da Teologia da Libertação, cujos teólogos, ao seguir na trilha política da Igreja, partiram para a conscientização dos fiéis em consonância com o dogmatismo marxista. Eles foram tentados pelos demônios da política, como explica Max Weber em A Política como Vocação. Assim, mais uma vez a Igreja mergulhou no mundo temporal deixando de lado o reino espiritual, incitando não a paz mas a violência, não o amor mas o ódio. E esse foi um dos fatores do afastamento de muitos católicos de sua Igreja. Eles partiram em busca de conforto espiritual a quem pudesse lhes dar.
Os carismáticos tentam recompor a lacuna. São a igreja da cura, da alegria, do calor espiritual, do Espírito Santo, da busca da antiga santidade dos primeiros cristãos, quando ainda não havia a pesada estrutura político-religiosa que tanto se afastou dos ensinamentos de Jesus desde o século II para impor seus dogmas e suas crenças sincretizadas. Portanto, quando o padre Marcelo canta, atrai multidões. Ele não quer doutriná-las sobre a reforma agrária. Ele louva alegremente o seu Deus e, por isso, tantos o seguem.





