Prezado sr. Homero Barbosa Neto, jornalista e apresentador de TV:
Contarei uma pequena história. Um pintor famoso resolveu mudar de arte um dia e tentou fazer versos. Com poema recém-escrito em mãos, procurou o amigo poeta, para saber o que ele achava. O poeta leu os versos do pintor, fez uma cara de desapontamento e disse com franqueza que os versos eram ruins. O pintor perguntou, então:
- Mas a idéia, pelo menos, não é boa?
O poeta respondeu:
- Ah, se a poesia dependesse só das boas idéias...
Moral da história, sr. Barbosa: o poeta precisa ter algo mais do que idéias interessantes. Ele deve trabalhá-las com competência e sensibilidade suficientes para atingir o espírito, o sentimento e o intelecto das pessoas.
O jornalismo, embora não seja uma arte, está da mesma maneira voltado à consciência humana, e tem desafios diários. A tarefa do repórter, do editor, do comentarista, do fotógrafo é mais terra-a-terra. Não podemos criar novos mundos, mas devemos traduzir este mundo da maneira mais fiel e correta possível. Para isso, não basta partir de uma excelente idéia ou reunir boas intenções (das quais o inferno anda lotado). Também não é suficiente apenas escrever ou falar bem. É preciso seguir uma série de regras de conduta. Há limites e critérios para cada tipo de trabalho, inclusive o trabalho de informar. Há uma ética.
O jornalista Cláudio Abramo, um dos mestres da profissão, costumava dizer que a ética do jornalista deve ser a mesma do cidadão que anda na rua. Idéia simples e boa. O jornalista e o cidadão não podem difamar ninguém. Não podem enganar ninguém. Não podem roubar ninguém. Não podem invadir a casa de ninguém. Não podem agredir ninguém. Não podem chantagear ninguém. Não podem omitir socorro a ninguém. Não podem destruir a vida de ninguém. O jornalista e o cidadão que anda na rua, aliás, devem ser a mesma pessoa. Toda vez que o jornalista escrever um texto, gravar um programa, fizer uma foto, realizar uma entrevista, deveria formular a seguinte pergunta a si mesmo: ‘‘O que aconteceria se todos fizessem o que eu estou fazendo?’
O Movimento em Defesa da Ética no Jornalismo, formado por 27 entidades de Londrina, quer colocar essa pergunta na pauta da imprensa.
Um caso terrível de abuso deflagrou o movimento. Há algumas semanas, foram ao ar em Londrina e região, no início da tarde, as imagens de um cadáver vilipendiado em cemitério da cidade. O programa de TV responsável é comandado pelo sr. na rede CNT. Depois, sabe-se lá por que vias tortuosas, as mesmas cenas apareceram no famoso ‘‘Programa do Ratinho’’, transmitidas para todo o País, pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Não ocorreu aos srs. que as imagens poderiam ofender profundamente uma família, que precisou de tratamento psicológico? Não ocorreu aos srs. que aquilo era um desrespeito à dignidade humana? Não ocorreu aos srs. que a tal ‘‘matéria’’ era uma forma de vilipendiar ainda mais o cadáver?
O sr. alegou ter prestado um serviço ao denunciar o abandono dos cemitérios de Londrina. Ora, mas a denúncia foi feita - de modo fiel e correto - por todos os outros meios de comunicação da cidade, que, no entanto, não divulgaram sordidamente as cenas do corpo violado. Eis a diferença entre jornalismo ético e jornalismo antiético.
Fui por alguns anos repórter de cidade da Folha. Conheci todos os cantos de Londrina, vi cenas de miséria e violência, constatei a omissão do poder público, aprendi muito com a população. Mas nunca me aproveitei da boa-fé das pessoas para faturar. Não tenho fã-clube, como o sr. tem; mas, após um dia de trabalho, ponho a cabeça no travesseiro e durmo tranquilamente. Sei que não exploro ninguém - nem vivos, nem mortos.
A denúncia dos problemas sociais é uma ótima idéia, um excelente começo. Mas esse ponto de partida não basta para se fazer jornalismo ético. Seu programa - como aquele do sr. Ratinho - parte de algumas boas idéias para em seguida desvirtuá-las. O srs. prestam alguns serviços à sociedade e com isso se consideram livres para fazer o que vier à mente (e significar sucesso, notoriedade, lucro), sem se importar com mais nada e com ninguém. Assim como vendem produtos fora do intervalo comercial, fazem das causas justas um pretexto para o mercado persa do falso jornalismo. Em seu programa, o amigo de hoje pode ser a vítima de amanhã.
No dia 30 de janeiro, o Movimento em Defesa da Ética no Jornalismo realizou um ato público contra os abusos da imprensa, no Calçadão de Londrina. Mesmo sob uma forte chuva, mais de 100 pessoas compareceram. O movimento começou modesto, mas forte. Foi noticiado com destaque.
Mas o que dizer de sua reação ao movimento, prezado colega? Incrível a diferença de comportamento entre os seus comentários na TV e seu artigo publicado há alguns dias na Folha, sr. Barbosa. Na TV, chamou indistintamente colegas jornalistas de ‘‘maconheiros’’, ‘‘bêbados’’ e ‘‘frustrados’’. No jornal, retirou cuidadosamente os adjetivos anteriores e se fez de bonzinho, citando orelhas de livros, empilhando argumentos esparsos para posar de intelectual. Esse teatro de duas caras é um tiro na inteligência de qualquer cidadão.
É claro: o sr. não pediu desculpas nunca pelo que fez, dando a entender que vem mais por aí. Na TV, o espetáculo foi cômico: o sr. disse que o Movimento em Defesa da Ética pretende tirar seu programa do ar; subiu na mesa e, à beira da histeria, informou ter sido o primeiro colocado em sua turma na Universidade. Gritou:
- Eu sou o primeiro lugar! Eu sou o primeiro!
O Movimento em Defesa da Ética tem como princípio fundamental ser contrário a qualquer tipo de censura. Não precisa sapatear na mesa, sr. Barbosa: ninguém quer censurá-lo. O jornalista deve entender, apenas, que liberdade de imprensa não é carta branca para desrespeitar os direitos básicos do cidadão, como seu programa fez. E mais: liberdade de imprensa é também liberdade de criticar a imprensa. No Estado de Direito, o cidadão tem caminho aberto para procurar meios legais e reparar danos sofridos. Aliás, é conveniente lembrar ao sr.: as emissoras de TV são patrimônio público. Os detentores das TVs - do sr. Roberto Marinho ao sr. José Carlos Martinez - não são donos, mas meros concessionários de um bem que pertence à população. Assim, cada um de nós é patrão de Homero Barbosa Neto.
O Sindicato dos Jornalistas acaba de editar um Manual de Ética - que será distribuído a todos os profissionais, professores e alunos de comunicação de Londrina e cidades vizinhas. O sr. receberá um. A entidade também atuou para conceder registro profissional a pessoas que já desempenhavam a função há pelo menos 15 anos, profissionais com experiência prática que se encontravam em situação irregular. Todo trabalho de concessão de registros - que é de caráter nacional - foi amplamente divulgado à categoria. E seguiu critérios éticos bem definidos.
Ao criticar esse trabalho e chamar covardemente de ‘‘iletrados’’ profissionais que fizeram jus ao registro, o sr. comete uma nova falha ética. Faz uma ofensa a velhos companheiros de profissão, muitos dos quais trabalhavam antes mesmo de o sr. ter nascido.
O sr. parece, de fato, encontrar-se em estágio de irrealidade, de fantasia, de alheamento. Não estou certo de que entenda a quem está atingindo quando desqualifica o Movimento em Defesa da Ética: a Igreja Católica, a OAB, o Centro de Direitos Humanos, escolas, sindicatos, associações de bairros... O sr. ofende até mesmo a Universidade Estadual de Londrina (UEL). Justamente a UEL, que lhe atribuiu o primeiro lugar! Entre os que hoje protestam contra suas atitudes, sr. Barbosa, há ex-professores seus.
Diploma de jornalista, índice de audiência, fã-clube, camisa e gravata, microfone na mão, murros no ar e ataques histéricos não dão a ninguém o direito de tripudiar sobre a dignidade humana.
Acontece que agora o sr. tirou nota zero.
Atenciosamente, um colega.
- PAULO BRIGUET é redator da Folha em Londrina e diretor do Sindicato dos Jornalistas de Londrina

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