Carros, lágrimas e insensatez
Renzo Sansoni
Fui à missa, celebrada em intenção de uma família toda morta e despedaçada em acidente de trânsito. Mais uma missa, dentre milhares, pelo mesmo motivo, pela mesma desgraça que entristece o Brasil: o mal do carro. Num lampejo de fatalidade, e/ou irresponsabilidade, toda a vida, estrutura e emoções de uma família foram para o espaço, deixando dor, saudade, lágrimas, revolta e muito ódio (para alguns exaltados). Igreja cheia, tensa, gente aos prantos, cânticos de alívio e muito sermão do padre para acalmar os nervos. Severo ambiente de funeral.
A lei do trânsito ainda não resolveu quase nada para colocar nossos carros, e nossos motoristas, no caminho correto e pacífico da responsabilidade social. A lei do mais forte e do mais desajuizado ainda prevalece, e manda, e mata. As multas pesadas, em terras brasileiras, será sempre de pouca valia e de pouco consolo para as vítimas. Aliás, que consolo poderá haver para quem perde uma mãe, uma esposa ou filho no trânsito? Imagine o inferno de dores para os que ficam, quando se perde quatro de uma só vez. Pena e prisão podem ser duras e perversas para quem é punido, e de grande mediocridade para a cura efetiva do mal do carro.
Esta enfermidade, chamada aqui de mal do carro, ainda não foi bem entendida e analisada por nossos poderes maiores. As estatísticas e a sangueira nas estradas pouco valeram para comover e demover nossos dirigentes, na busca de uma solução profunda, decisiva e bem tupiniquim.
Vamos pegar, aqui, carona na lembrança do saudoso e inflamado Flávio Cavalcanti. Resoluto e perspicaz em seus programas, de alcance nacional, ele andava nervoso e irritado com tantos mortos e mutilados na selva motorizada deste País. Com aquele rompante típico, sem papas na língua, lançou o seguinte desafio para nossas autoridades: ‘‘É bom que todos saibam’’ (palavras dele, e minhas) ‘‘que não acredito muito em educação para trânsito no Brasil. Brasileiro não liga muito para isto.’’
Não é muito mais simples, e racional, nossas autoridades desenvolverem uma lei para que as montadoras de veículos façam carros com velocidade máxima em torno de 100 à 120 km/hora? Aí, sim, não adianta o motorista pisar, criminosamente, no acelerador: o carro já está limitado em sua potência. As vaias e o silêncio de Brasília, e das montadoras, falaram mais alto, comprovando a essência verde-amarela de desprezar e fritar o prioritário e inadiável.
Mas o Flávio não foi esquecido. E me lembrei muito dele nesta missa de resignação e meditação. O assunto merece ampla reflexão. Simplesmente porque a doença do carro mata muita gente e produz muitos infortúnios. Taí a redescoberta do ovo de Colombo, para nosso sossego. Está aí uma das maiores chances de se evitar sangue e tragédias nas estradas brasileiras; uma revolução limpa e indolor, no campo de batalha envolvendo seres humanos e máquinas dirigidas por seres humanos desmiolados.
Quando a lei nacional de trânsito não permite que se ande mais do que 120 km/hora, não é muita insensatez e falta de bom senso que se permita produzir veículos com 260/280 km/hora? O nó da questão está nesta corda. A coisa é partir para cima das montadoras, rompendo de vez com a deusa mortal, e vingativa, da velocidade. A simplicidade da solução parece ferir a inteligência e a responsabilidade de nossos dirigentes. De tão simples, parece tão pueril. De tão óbvio, parece coisa de caipira. Parece, mas não é.
O motorista brasileiro sempre pulará a cerca do respeito e da razão, quando houver oportunidade e impunidade. Mesmo que o custo seja a destruição da família, vida, amores e sentimentos do outro.
RENZO SANSONI é oftalmologista em Uberlândia (MG)