CARREGADO DE IDEAIS 'Fiquei muito decepcionado com a coisa pública'
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sábado, 08 de outubro de 2011
Davi Baldussi <br>Reportagem Local 
Não é de hoje que o Brasil carece de modelos. Não de Giseles Bundchens ou rapazes dentro do padrão de beleza determinado pela mídia. Precisa de exemplos de comportamento, pessoas em quem se espelhar. O velejador Lars Grael é um desses modelos. Ele é motivo de orgulho e admiração por uma coleção impressionante de feitos.
É dono de duas medalhas de bronze olímpicas, conquistadas em Seul (1988) e Atlanta (1996). É modelo de superação por ter voltado a competir após ter perdido a perna direita em 1998, quando foi atingido por uma lancha conduzida por um homem que estaria embriagado. Ainda é, aos 47 anos, o atual campeão brasileiro e sul-americano da classe Star. E está preparando-se para a disputa de uma nova seletiva olímpica.
Grael também coleciona realizações fora das regatas. Foi secretário nacional de Esportes no governo Fernando Henrique e secretário estadual da Juventude, Esporte e Lazer na gestão Geraldo Alckmin, em São Paulo. Desses períodos, porém, não guarda as melhores recordações. ''A gente chega carregado de ideais, achando que pode fazer mudanças no Brasil, dar uma dose de contribuição. No entanto, o sistema político de poder serve apenas para se servir e não para servir a sociedade'', alfineta.
Antes de palestra recente em Foz do Iguaçu (Oeste), Grael conversou com a reportagem da Folha de Londrina sobre o que o motivou a continuar competindo após o acidente. E também expôs sua preocupação com o ritmo da preparação para a Copa do Mundo e Olimpíada do Rio de Janeiro.
O que te atrai na vela?
A vela para mim é uma paixão muito grande. Tem muitos esportes em que o atleta chega ao ponto em que ele acha que chegou na fase decadente, passou o apogeu, então pensa em parar. Quase todos pensam em parar por cima para não macular a imagem de grande campeão. Eu entendo e respeito isso. No caso da vela existe uma paixão tão grande, uma relação entre nós e a natureza, uma cumplicidade com vento, que nós até aceitamos a decadência. A pessoa sabe que já não é mais o melhor do mundo, mas continua a fazer porque gosta.
Como foi o seu recomeço no esporte? Por que optou pela classe Star?
No caso do Star, é um barco de maior estabilidade, estreito, com dois velejadores. O proeiro é mais pesado, é ele que projeta mais a pessoa para manter estabilidade do barco enquanto o timoneiro se limita a pilotar e fazer os ajustes da vela. Aí posso ser competitivo. Foi o próprio Torben (Grael, irmão de Lars) que me convenceu a experimentar e deu certo. De lá para cá foram três títulos sul-americanos e cinco nacionais.
O que te leva a ir em frente, a se superar?
Sempre o sonho olímpico. Eu tive como referência os meus tios que foram tricampeões mundiais nos anos 60, medalhistas nos Jogos Pan-Americanos, participaram de duas Olimpíadas. Chegaram perto, mas não conquistaram medalhas. Mas o que realmente motiva a gente é o ideal olímpico, a vontade de representar o Brasil, usar o uniforme do Comitê Olímpico Brasileiro, subir no pódio e ver a bandeira tremulando ali. É o que a gente sempre perseguiu na vida.
Como têm sido as regatas nos últimos anos?
Eu continuo ainda firme na classe Star. Nos últimos dois campeonatos mundiais eu fui o único barco a ficar entre os cinco. Em 2009 fui medalha de bronze e em 2010 fiquei em quarto lugar. Neste ano vai ser em dezembro na Austrália, mas não vou participar, o custo é muito alto. Mas continuo focado na seletiva olímpica. Este ano fui campeão brasileiro e sul-americano.
Como você concilia palestras e treinos?
Quando tive o acidente em 98, eu não queria parar e refletir sobre minha vida porque achava que uma mente vazia ia ser espaço para ter todo complexo com relação ao porquê do meu acidente, de ter virado deficiente. Então ocupei minha vida com diversas atribuições, passei a fazer parte de organizações não governamentais, assumi cargos governamentais, fui treinador de vela, competidor, entrei nesse ramo de palestras e consultorias.
Abri tantas frentes que a coisa mais difícil é administrar o tempo. Então basicamente hoje eu divido minha vida entre palestras, algumas consultorias e bastante regata, porque regata é minha paixão. Então a agenda é intensa, mas hoje sou feliz e realizado naquilo que faço, no esporte, perante a família e no trabalho. Meu acidente em setembro de 98 foi uma guinada na minha vida. O reaprender a viver, a busca de novos valores, como servir a sociedade não apenas como um atleta olímpico.
E tive uma experiência na vida pública de oito anos, quando fui secretário nacional de Esportes e secretário estadual em São Paulo. De longe essa foi a experiência mais difícil. Lidar com cargo público e ambiente político no Brasil não é fácil.
Por que foi tão difícil lidar com o poder público?
Porque a gente chega carregado de ideais, achando que pode fazer mudanças no Brasil, dar uma dose de contribuição. No entanto, o sistema político de poder serve apenas para se servir e não para servir a sociedade. No início você acha que vai mudar, mas depois você vira aquele objeto estranho. Existem várias correntes que te tiram de uma lógica técnica e social e te botam numa lógica eleitoral, político-partidária. Depois de oito anos fiquei muito decepcionado com a coisa pública. Acho que no País, do ponto de vista da ética e moral da política brasileira, houve uma grande involução.
O senhor pretende voltar a ocupar cargo público?
O que vejo hoje é a banalização da imoralidade. A gente já não consegue separar o certo do errado, o momento é muito difícil. A gente vê um corporativismo muito grande, a troca de favores entre políticos, entre poderes, Judiciário quebrando o galho de grande nomes políticos. Mas acho que isso há de mudar. Tivemos um ciclo de 20 anos sem democracia e esse reaprender a votar tem sido difícil, mas necessário. Então acho que todos nós temos que dar a nossa dose de contribuição como cidadãos, como eleitores. Eu, como atleta, como formador de opinião, tento dar essa dose. Estive oito anos em cargo público na gestão esportiva, mas cansei. Quem sabe algum dia, em um outro projeto, poderia voltar a contribuir, mas não é um projeto de vida.
Um tema que tem preocupado o País é a organização para os grandes eventos esportivos dos próximos anos. Estaremos preparados para as Olimpíadas de 2016?
Acho que tínhamos um grande aliado: o tempo. Antecedência para quem tem experiência na promoção de eventos é tudo. Esse tempo, que era nosso aliado, já virou inimigo. Só faltam cinco anos para os Jogos Olímpicos e pouca coisa aconteceu. Então tem que ter um ritmo frenético de obras para que possa dar uma transformação urbana ao Rio para que esteja num padrão de uma cidade olímpica.
Se olharmos para o cenário das últimas olimpíadas temos referências. Barcelona fez uma grande transformação urbana, que projetou a Espanha para todo cenário turístico internacional. Os Jogos Olímpicos de Sidney, na Austrália, também foram voltados para uma transformação urbana, mas com viés ambiental muito grande. A Austrália tinha uma grande preocupação de não só faturar com o turismo, mas dar um salto qualitativo do esporte. E a Austrália de lá para cá virou potência esportiva.
Em relação a Pequim é mais difícil fazer uma comparação, porque o nível de investimento dos chineses é incomparavelmente mais alto. Os problemas ambientais eram gravíssimos e foram apenas um pouco mitigados. E é um regime político centralizado, difícil de fazer comparação direta.
Agora, temos a referência negativa, que é Atenas, na Grécia, em 2004. País maravilhoso, povo lindo, história, berço dos Jogos Olímpicos, mas que não trabalhou com a antecedência devida. Obras inacabadas, superfaturadas, interrompidas em função de problemas ambientais e de patrimônio histórico. Uma Grécia que não teve legado de investimento de infraestrutura e um país que hoje está quebrado economicamente.


